in “Tua”
O que dizes não me interessa, é o que calas que me prende.
E é assim que te amo; presa no que não sei, agarrada ao que não me interessa. Se um dia falares, fá-lo devagarinho, que eu nunca me consegui prender ao que conheço e alimento-me de palavras vazias. Nem saberia onde por tanta verdade, sabes, por aqui escasseia o espaço e a prateleira da verdade é muito comprida e bicuda, também não iria bem com os móveis, que estão feitos à minha medida: metros de esperança no que calas. Traz-me antes uma prenda, qualquer coisa desinteressante mas bonita, que eu ainda sou menina e acredito que o amor não se diz mas pode-se oferecer. Ou então, volta mais cedo que sem ti o dia custa, mas não digas que to pedi, finge que foi de repente; ias na rua e sem causa, nem razão não paravas de pensar em mim. Diz que te fez falta o meu riso infinito, ou melhor, diz que não vives sem o meu bolo do lanche, aquele que queima sempre um bocadinho, mas só no fundo. Se não te ocorrer nada, não fales que me podes assustar, senta as tuas mentiras no meu colo e deixa-me tratar delas, eu até acho que ainda tenho um resto de pomada para a alma. Se o problema for transporte, apanha o táxi que te espera na esquina desde ontem, eu sei meu querido, que eles andam sempre atrasados. Se eu chorar, não repares, é que ultimamente tenho o coração cheio de poeira que não pára de me chegar aos olhos, finge que foi por descascar cebola, finge que não fazes falta, que eu nem te esperava, que a surpresa foi tão grande,
que sem querer soltei um pulso com a faca da cozinha, e sem querer o outro, finge que não vês que estou numa banheira de água doce presa ao teu silêncio, ao que queres e não dizes, ao que sentes e não ofereces.
Se optares pela prenda, eu gostava que fosse um baton vermelho, vermelho combina com risos infinitos.
TUA
Devolvo-te o rio comigo dentro.
É no rio que tudo passa. É tarde e tu não chegas. Estás algures mas eu não estou. Na mala tantas missivas com destino, e eu sem destino nenhum. Uma mala cheia de palavras gastas, de cigarros por fumar, de razões para ir embora, uma mala cheia de medo de o ser, pelo tanto que me pesa. Eu não uso maquilhagem e é pena pois parece que me favorece, mas guardo num bolso apertado, em cima da alça cosida ao ombro, um corajoso lápis de olhos que me serve para escrever nas paredes.
Tu não vens e eu não consigo habituar-me. Não fui eu, mas as margens que me empurraram para ti, para dentro daquele rio onde tu corres distraído, onde nunca me esperas porque não tens tempo, eu sei, a corrente é forte e leva-te para longe, sem querer desembocas sempre numa cidade nova e nem te dás conta que há mil anos que me sento naquela margem velha e paciente, na esperança que uma qualquer cheia te traga á tona da minha memória. Mil anos Tua, aprisionada na terra com desejo de água. Agora tens-me sem precisares voltar, sou saudade navegante, alma ensopada, deixei para trás, a mala e o ombro, o meu lápis corajoso mas que não escreve na água e um mundo de infinitas paredes vazias. O rio só tem chão, e um só sentido; o da partida. Prometo que não te incomodo, falarei baixinho e não me vou queixar do frio, talvez estranhe tanto viajar sem porto, mas será só no inicio, também não te pedirei companhia porque estarei contigo. Para sempre contigo, nesse enorme naufrágio que somos nós.
TUA
12.00: O despertador não tocou. Como se tivesse pudor em tocar o tempo.
13.35: Não vou a lugar nenhum, contudo faço as malas. O tempo continua intocável.
16.00: Há duas horas e meia que procuro qualquer coisa que preencha o vazio das malas. Há duas horas e meia que me vasculho, na esperança de ter o que levar comigo para nenhum lado em hora alguma.
18.00: Hoje, sei lá eu porquê, hoje é diferente e não dói nada mais por isso, não tenho por onde doer, está tudo inteiro, bem remendado, porém não pesa, talvez por isso tropeço com tanta facilidade. Mas não faço birras, choro pouco, o pouco suficiente para comprar o autocolante da C.H.P., como tu dizes: condição humana provisória.
18.05: Não te quero incomodar, mas se quiseres vir para o café..., dizem que é bom quente, que se perde o lugar na mesa se não se chegar a horas, ou então esquece tudo isso e vem por mim que não sei ao certo quanto tempo mais fico por cá, se é que alguma vez aqui estive. Tenho a casa arrumada para ti, limpa, vazia de todas as coisas, como deve ser; nada que perturbe ou desconcentre.
21.10: Tu não és o género de pessoa que caiba no esquecimento, não puseram o teu nome em nenhuma cadeira, então, sei muito pouco o que fazer contigo. O café esfriou há muito e o vazio higiénico da casa contaminou a minha bagagem; há sete horas e trinta e cinco minutos que tento fazer a mala, mas esqueci-me de fazer a vida, se calhar foi isso, há sete horas e trinta e cinco minutos que pesa a bagagem que não tenho, a vida que não tenho, se viesses podias fazer-me uma trança, como já disse outras vezes; ainda sou menina.
21.10 do dia seguinte: Fiz vinte e quatro horas de silêncio por todos nós, um luto pelas frases mal acabadas, pelo que não temos direito a dizer, pelo que dizemos com direito e ninguém ouve. Não me agradeças, eu não falo, ou muito pouco, e quando o faço é muito baixo. Sou oficialmente distribuidora de palavras, pornografia mal roçada nas portas dos outros, recados em cima dos tapetes da entrada, algumas espreitadelas pelas fechaduras destapadas e metros de assinaturas de ausentes, tudo coisas que não me cabem na mala.
23.50: Talvez não gostes de café, ou foi simplesmente falta de tempo.
02.08: Levo o teu corajoso lápis de olhos no bolso e na mala uma quantidade inimaginável de nada, absolutamente nada.
04.49: Desculpa se me vou assim, mas haverão outras vezes, mesmo que não o notemos. Seria tudo mais fácil se aqui estivesses, se os chapéus de chuva fossem de chocolate e chovesse todos os dias, se eu coubesse na mala, se tranças me ficassem bem, se as cartas fossem doces e se pudessem comer no caminho, seria tudo mais fácil se tivesse feito chá e se não me faltasse tudo, tudo.
04.50: Estou a caminho. Desculpa-me do tanto que esqueci.
sábado, 1 de agosto de 2009
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:-)
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