sábado, 1 de agosto de 2009

Textículos

“Não que eu me sinta sozinha”

Eu não sou muito de tomar comprimidos, mas tenho sempre para oferecer. Sempre me vi como uma pessoa muito generosa. E não há nada melhor que um comprimido, é que vai bem com tudo e são lindos, todos às cores, é verdade, fica sempre bem oferecer um comprimido. Ah, sem esquecer, que há um para todas as ocasiões; logo de manhã um azul para acordar, e com este uma infinidade para lhe fazer companhia, um laranja para sufocar a tensão arterial, um verde que é diurético para passarmos os dias urinar os nossos desafectos, um rosa para as angústias cinzentas, um amarelo para abrir o apetite de quem já “não tem estômago”, um roxo para trancar a boca de quem come demais, um castanho para calar a boca de quem fala demais. Durante o dia, vários, grenás, para digerirmos, para nos digerirmos, enfim para não vomitarmos o próprio dia. E à noite, granulados laxantes, que afinal, ninguém é de ferro, e uns branquinhos que são verdadeiras anestesias gerais para dormirmos um sono descansado.
Com tantas necessidades, não há presente melhor que puxar da mala e perguntar: Quer um comprimido?
A verdade é que eu sou bastante generosa.
Uma vez tive um marido, agora já não tenho, morreu. Não que eu me sinta sozinha. Era muito doente o meu marido, e foi ele que fez crescer em mim esta tamanha generosidade, este amor pelo próximo. Enchi a sua vida de doces psicotrópicos, ternas injecções de tudo o que havia, calorosas aspirinas, revigorantes supositórios, estimulantes xaropes e julgo mesmo que lhe correu nas veias um milagroso líquido letal. Acho que ele não chegou a compreender o meu amor, o meu cansaço e entregou-se à morte como se tivesse alguma razão para isso, desdenhou os dias intermináveis em que entregue à sua cama, lhe via a boca doente e escancarada babar lamúrias e gemidos.
Enfim agora já passou, mas continuo a dedicar-me aos outros.
A Sra está um bocado pálida, diria mesmo abatida, concerteza não vai recusar um comprimido.

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Estou com uma dor de cabeça! Será de ver televisão? Naaa, não me parece, eu quase não vejo televisão, desde que soube que o excesso de informação dá epilepsia, e para além disso, o sofá da sala está sem molas e cada vez que me sento, sinto a coluna a passar-me um atestado médico, isto sem falar do pó que aquela maldita divisão acumula, aparece sorrateiro, silencioso, e sem que eu tenha tempo de o aniquilar, já tomou conta da minha asma e já meteu conversa com a minha bronquíolite, só não me chega ao coração porque esse anda empoeirado desde que nasci.
E esta dor de cabeça?! Será excesso de pensamentos? Ouvi dizer que cada cabeça tem um limite para as ralações e quando se ultrapassa o limite, a pessoa fica com os olhos mortos, com o peito triste, os pés revoltam-se com os passos, os braços com os abraços, o corpo esconde-se na cama e perde-se a validade. Esta doença tem um nome que não me lembro bem….perda de pressão, sem pressão, à pressão, depressão,… não tenho bem a certeza. Mas também não pode ser, eu quase não penso, é que me gasta as ideias e cansa-me os sentimentos, e tanto sangue a correr-me nos neurónios, pode provocar uma trombose, pode inundar a minha inteligência, pode-me explodir os miolos e se tropeço neles ainda caio, e parto um braço, ou parto para nunca mais voltar.
Esta dor de cabeça também se pode chamar marido, uma doença que desenvolvi em nova e que se tem vindo a agravar com os anos, no meu caso deu filhos, e um vazio sem fim, com o tempo veio a confusão, as palavras sem sentido, os comportamentos violentos para o físico e para a alma, mais tarde quase não se dá por ela, mas quando muda o tempo, ela ataca a nossa cabeça e as nossas vontades com uma força inacreditável. Parece que não dá para morrer, mas o sofrimento é de dar pena. Não que eu me sinta sozinha, afinal, tenho sempre uma dorzita para me acompanhar. Por falar nisso, o que será esta dor de barriga?

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