sábado, 20 de dezembro de 2014

SOS SUICÍDIO

"Ligou para o SOS suicídio, a sua chamada encontra-se em fila de espera. Para suicídios com comprimidos prima a tecla 1, para suicídios com facas e armas de fogo prima a tecla 2, para suicídios com veneno e gaz prima a tecla 3, para suicídios na via pública prima a tecla 4, para outro tipo de suicídios prima a tecla 5, para falar com um operador prima a tecla 0."
- S.O.S suicídios boa noite, está a falar com a Ana em que posso ser útil?
- Eu queria suicidar-me.
- Muito bem, já tem ficha?
- Não, eu disse que eu me queria suicidar…
- Com certeza, nº de contribuinte?
- É necessário?
- Sim. No caso de morte certa, ser-lhe- á deduzido no imposto no ano seguinte o iva relativo aos nossos serviços, enviaremos também a factura para a sua morada.
- Mas se eu já morri quem é que paga?
- No caso de ser bem-sucedida, tenho a certeza que a sua família pagará de bom grado.
- Mas a minha família odeia-me, eu estou completamente sozinha por isso eu me quero suicidar, não estou cá a fazer nada… perdi o meu marido no centro comercial… os meus pais são adoptivos… não tenho filhos… nem trabalho, não tenho nada… é como se não tivesse família…
- Se a sua família a odeia, é muito bom! 
- O quê?
- Se a sua família a odeia, é muito bom!
- Bom como???
- Bom porque vai pagar de bom grado, eles refilam, refilam mas na hora h ficam todos felizes e orgulhosos e acabam sempre por pagar. As famílias são todas iguais! 
- Nunca tinha pensado por aí, realmente… vou fazê-los orgulhosos uma vez na vida… está certo, o meu nº de contribuinte é o 406 405 286. Precisa do nome?
- Não, mantemos sempre o anonimato.
- Pronto e agora?
- Então e agora vou ter que inserir os dados no sistema …o sistema está um bocado lento… Já está! Já escolheu a sua forma de suicídio?
- Não… ainda não, o que é que me aconselha?
- Este ano a tendência tem sido facas e armas de fogo.
- E comprimidos…
- Estão pela hora da morte! Não vai querer endividar mais a sua família, pois não?
- Não, claro que não, eles já vão ser tão generosos em pagar a taxa do serviço… de maneira nenhuma. Então deixe-me ver… o que é que tem?
- Ora temos, para além das facas e armas de fogo, temos gaz e veneno e via pública.
- Gaz e veneno não! Deve-se sofrer muito… estou mais inclinada para a via pública.
- A Sra. é que sabe mas eu não aconselho, corre o risco de chegar atrasada ao seu próprio suicídio.
- Olhe eu na realidade via-me a cair ao rio parece-me uma bonita despedida, não deve doer muito, eu sempre adorei água e termino com uma bela vista. Que lhe parece?
- Parece–me completamente impossível, este ano ainda não renovámos a licença com a luso-ponte! Posso tentar marcá-la para o ano que vem?!
- Não isso não me convinha nada é que é muito tempo…bom então restam-me facas e armas de fogo… armas de fogo que é mais rápido!
- Possui alguma?
- Sim o meu marido tinha para aqui uma espingarda de caça… sabe é que tínhamos um cão que na realidade era o meu melhor amig..
- Óptimo parece que estamos a conseguir finalmente! Tem obviamente licença de caçador!
- Não, acho que não… nunca vi…
- E licença de porte de arma?
-Também não…
- Bom, o seu tempo está a chegar ao fim, não da maneira como gostaríamos, mas é que tenho uma fila enorme de gente para atender.
- Mas vocês não são um SOS? Não existem para nos ajudar? SOS suicídio o próprio nome já diz e eu estou a precisar com urgência!!!
- Calma, calma, cama, que a urgência neste país é uma coisa muito difícil… mas vá lá… eu simpatizei consigo… Facas em casa tem com certeza?!
- Oh sim, muitas! Sabe eu cozinho muito, gosto de fazer aquel…
- Perfeito! Então parece que temos o problema resolvido vamos então marcar o dia e a hora, ah tem alguma faca de cabo vermelho?
- Mas é importante? Eu tenho de cabo de madeira, cabo metálico, uma azul e uma branca e uma verde.
- Não, lamento mas não dá, azul é para o queijo, branca para o pão e verde para legumes. As outras não servem absolutamente para nada! Normas da ASAE! Para carne tem mesmo que ser vermelha!
- Ah não sabia! E eu que tenho cortado carne a vida inteira com as de madeira! Que disparate! Então mas isso deve ser fácil de arranjar, sei lá numa loja chinesa por exemplo…
- Não, não nada disso! Tem que ser certificada porque a fiscalização anda em cima. Olhe, aconselho uma grande superfície! Tem cartão de alguma?
- Não, eu compro tudo aqui no senhor Virgílio, o merceeiro aqui do lado…mas eu faço o cartão. Demora muito?
- 2 semanas a chegar a casa. Mas se quiser eu já a deixo aqui na lista de espera, já sabe que estas coisas são demoradas.
- Muito obrigada! Nem sei como lhe agradecer! Quando tiver o cartão volto a ligar.
- Disponha. Desejo-lhe muitas felicidades! E olhe pode ser que lhe aconteça algum acidente entretanto, nunca se sabe!!!

Texto da  peça "Auricolérica & Teleufórica"





DESEMPREGADA

Estou sim muito bom dia, eu só liguei por causa do anúncio, quer dizer, na realidade, qualquer que fosse o anúncio, eu ia ligar, como tenho ligado todos os dias, nos últimos anos. Sabe o que é?... Eu fui tantas vezes à procura de emprego mas tantas vezes à procura de emprego, que hoje em dia eu estou muito mais interessada em procurar emprego, do que em encontrar emprego.
Eu até já arranjei um trabalhinho num café, tipo part-time,  para continuar sempre a patrocinar esta odisseia de não parar de procurar emprego.
 Bom, não lhe vou negar que isto no início não foi fácil, não… foi nada fácil… mas eu sou durona, e sabe quem me ajudou muito? Foram os empregados anónimos… não acredita? Olhe que são muitos, nem imagina, todo o tipo de gente! Eu, cada vez que tinha uma compulsão por conseguir emprego, corria às reuniões e foi com muita serenidade que consegui, que mudei… foi como empregada em recuperação que comecei a dar valor às recusas, que passei a ser incansável nas buscas, a gostar das respostas que não chegam, a adorar telefonemas, cartas, filas, esperas, e principalmente olhares de desprezo…
Ah como eu gosto de um olhar de desprezo! Foi fenomenal resolvi o problema em 12 passos sem ter que sair do lugar!
 Sabe… eu sinto-me… como uma espécie de Hércules do mercado trabalhista!!! E olhe que nunca tive recaídas! …Quer dizer… às vezes alguns pensamentos mais perturbadores… mas sobre coisas sem importância nenhuma! Coisas como… ordenado fixo, reforma, saúde, renda de casa, alimentação… até férias… coisas sem importância! Mas também quando é assim, corro ao instituto de emprego e passa-me logo! 
Eu hoje sou uma desempregada, que se realiza na tentativa de não o ser!
Se quer que diga eu já nem me lembro no que é que queria trabalhar quando me iniciei nesta, e acho que posso dizer com mérito, nesta profissão.
Para ser sincera, nem sei o que seria de mim se me aceitassem,… acho que um sim destruiria todo o meu projecto de vida… acabava comigo. 
Agora, uma recusa… uma recusa tem outro sabor, é que nós lidamos muito melhor com o que conhecemos do que com o desconhecido!
Na realidade, o que me faz falta é um namorado! Não que eu me sinta sozinha!!! Eu até acho que nem ia ser difícil de encontrar, porque obviamente, a minha alma gémea tem que ser desempregada e isso é o que não falta por aí, só que duas buscas ia ser um problema, e depois ainda corria o risco de me transformar numa solteira à procura de marido, nãooooo!!!… Serei sempre uma feliz e equilibrada desempregada!
Mas voltando à vaca fria, eu só liguei por causa do anúncio! … Eu já sei que me vão por à espera com a música do Vivaldi, e não se preocupe que eu já percebi que estão todas na conversa e que a filha da vizinha da secretária de administração já tem o lugar garantido… disponham, eu estou aqui para isso… eu tenho todo o tempo do mundo! E se eu não corresponder ao perfil, fico-lhe eternamente grata!
O meu nome é Susana e sou uma empregada em recuperação obrigada e mais 24 horas.

Texto da peça "Auricolérica & Teleufórica"



PORTUGAL JÁ ERA

- Portugal já Era, muito bom dia.
- Bom dia! Eu estou à procura de casa.
- Muito bem… tem preferência por algum bairro?
- Não… na realidade tem é que ser barata… sabe eu tive de sair da casa onde vivo há anos porque não consigo pagar a renda…
- Mas isso não é problema nenhum! Não sei se a Sra. sabe mas nós somos campeões de mercado no que diz respeito a preços baixíssimos! Quanto é que pode pagar?
- Na realidade muito pouco, muito pouco mesmo…até tenho vergonha…não sei se vai ser possível…eu só queria um lugar para guardar as minhas coisinhas… fazer as minhas refeições e dormir.
- Por amor de deus minha senhora, não desanime! Então tecto não é fundamental!
- Não entendi,  desculpe.
- Então passo a explicar, o que a Sra. precisa é de chão! Para por uma mesa, um tapetito se calhar, a cama… enfim para as suas necessidades, não vejo minima razão para haver tecto!
- Mas eu estava a pensar…
- Minha querida Sra., não pense,  deixe que eu penso por si. Temos aqui várias hipóteses… por exemplo… jardins, que têm sempre uma bela vista, o ar é óptimo, pode fazer exercício, acorda com os passarinhos… bom, parece-me perfeito para si!
- Da maneira como fala já me está a parecer perfeito a mim também… Então e quanto custa?
- Baratíssimo, como lhe disse somos campeões de mercado!!! 2 euros e 99 por mês! Que lhe parece?
- Pena, mas está um bocadinho acima das minhas possibilidades…
- Então, não desanime! Vamos já para uma coisa mais em conta!
- Obrigada, está a ser muito gentil.
- Temos praças e largos! As áreas são óptimas, têm bastante luz, são um pouco mais barulhentas mas são muito centrais! Temos alugado muitos espaços deste género!
- Então vou ter muita vizinhança?
- Vai mas penso pelo lado positivo, não precisa de comer sozinha, não precisa de falar sozinha, nem precisa de dormir sozinha!
- Realmente começa a soar-me bem… e quanto custa?
- 1 euro e 50 por mês!
- Continua assim, … um bocadinho acima das minhas possibilidades…
- Não desespere que nós vamos resolver já o seu problema!!! Calçadas!!! Uma coisa muito típica, muitos turistas, muita luz, ah e com a vantagem que como vai estar sempre em andamento, vai se fartar de fazer exercício!
- Ai, o médico bem me mandou fazer exercício…está óptimo quero então alugar a calçada!!! Que burra nem perguntei… quanto é que custa?
- Bom o senhorio quer 50 cêntimos mas bem conversadinho, bem conversadinho e porque é para si, eu consigo baixar até aos 19 e 99.
- 19 e 99?
- Cêntimos! Ah vai precisar de fiador, obviamente vinculado à função pública e de dar um mês de caução e um mês de renda.
- Oh Jesus… é que eu não tenho tanto dinheiro!!!
- Bom então ainda nos resta mais uma hipótese! Semáforos, ainda têm 1 vago e outros 2 apalavrados. O semáforo não precisa de fiador mas tem que dar a caução, é um pouco mais barulhento mas vai ser a casa onde vai fazer mais exercício!!! É muito bem servido de transportes e ainda tem dto e esq!
- Ah eu nem acredito! Eu sempre quis uma casa assim… com dto e esq… parece um sonho.
- Não é um sonho, já é uma realidade!!! O semáforo é muito charmoso, quando está verde para os pedestres a Sra. atravessa com as suas coisinhas e monta a casa do outro lado, e vive deliciosos momentos com o semáforo vermelho, quando fica verde outra vez, volta a atravessar com as suas coisinhas… vê muito ginástica! E monta a sua casinha do lado de cá, bom e assim sucessivamente durante todo o dia e noite. E ainda se vai fartar de conhecer pessoas! Enfim um espaço para quem gosta de uma vida moderna, cosmopolita e a um ritmo alucinante!
- É esta mesmo!!! E quanto é que custa???
- Não custa 10, não custa 9, não custa 8, não custa 7, nem tão pouco 6, custa 5 cêntimos por mês!
-  Ah que alivio! Se eu levar uma vida bem poupadinha eu acho que vou conseguir pagar! Consegue falar com o senhorio para não ter que pagar a caução?
- Só preciso é dos seus dados para o contrato. A visita não me parece fundamental. Afinal quem é que nunca viu um semáforo?!
- E quando é que me posso mudar?
- Já no início do mês que vem!
- Que maravilha! Muito obrigada!


- Eu é que agradeço e muitos parabéns! A imobiliária Portugal Já Era tem a honra de oferecer a quem aluga semáforos uma placa para pendurar…onde quiser, que diz: “O mundo inteiro não vale o meu lar!”

Texto da peça "Auricolérica e Teleufórica"




A PRECE - SCRIPT

"A Prece"

Já vou descer…daqui a pouco.
É só o tempo de me despedir do infinito, fechar as janelas do céu e entregar as chaves da nossa existência.
Hoje acordei pregado aos nossos sonhos mas distante dos homens. Doem-me as preces que chegam baixinho, doem-me os sacrifícios, as caminhadas, doí-me a eternidade. Quantas vozes tem uma oração? Quantos passos são do céu à terra? Quanto é que mede um milagre? Um abismo de velas ilumina o meu caminho de volta.
Já vou descer…daqui a pouco.
Tenho medo de cair e não me magoar. Tenho saudades de chorar, chorar muito… mas lágrimas transparentes como as de toda a gente, tropeçar na rua, rir às gargalhadas, fazer sombra, apaixonar-me, encher a boca de pão e ter alguém para conversar. Principalmente ter alguém para conversar, saber das novidades da terra em segunda mão, desabafar o quanto o eterno me aprisiona, o quão eterna é a minha vontade de viver.
Um dia hei-de ser velhinho, sem memória celestial, hei-de ter uma casa de pedra equilibrada numa tira de madeira e uma vida de pedra equilibrada na esperança.
Acho que estou preparado para cair do céu, tenho um emaranhado de andorinhas nos ombros e asas no meu destino.
Obrigado pelos segredos, pelas confissões, pelas preces e por tão grande amor. Hoje carrego uma cruz de carne e osso, os espinhos da imperfeição mas a felicidade do nosso reencontro.
Já vou descer…agora.

Quem não tiver pecados, que não atire pedra nenhuma.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

W.C.

Margarete entrou de rompante e de cabeça pela casa de banho adentro. Levantou a moral e olhou para o espelho, a alegria em pó escorria-lhe pelo nariz e a sua imagem branca ocupava todo o reflexo do espelho.

“ Chega-te para lá, foda-se” gritou a simpática desconhecida do lado, que tentava segurar o charme com um gritante baton vermelho, e que por falta de espaço já lhe gritava na cara toda.

Margarete, sorri-lhe um hálito cansado de whisky novo, envelhecido nos encontrões, no barulho, nos magníficos saltos que dera na pista de dança, enquanto fungava tanta felicidade nariz a cima. A outra continuou rosnar, ao mesmo tempo que punha a cabeça para baixo e abanava o cabelo forte e sem direcção. Mas Margarete já nem com um sorriso conseguia responder, tinha a boca presa, como se alguma peça se tivesse desapertado e todo o mecanismo deixasse de funcionar; nem rir, nem falar, comer estava fora de questão, para beber ainda se dava um jeito... mas não fazia mal porque ela estava simplesmente linda. Retirou do espelho mais uma confirmação de que estava realmente estonteante, profundamente drogada, totalmente bêbada e completamente feliz.

19.06 minutos, o telefone tocou mais apressado do que era habitual.

“Quero-te ver hoje.”

“ Onde?”

“Vamos jantar”

“No de sempre?”

“ Sim.”

“ A que horas?”

“Às nove.”

“Estarei lá às nove...Desculpas-me?”

“Não sei, depende do teu comportamento.”

“Amas-me?”

“Sim.”

“Desesperadamente?”

“Não sei, depende do teu comportamento.”

“Estarei lá às nove...”

“Até lá.”

19.22 minutos, Margarete não queria mais este amor, que a arrastava em súplicas, um amor de culpa nem ela sabia bem do quê, um amor de “amas-me?”, um amor “desesperadamente” sem amor.

19.23 minutos esqueceu o que tinha pensado há um minuto atrás e concentrou-se no seu amor desesperado, que ela jamais queria perder.

A rua era torta e bonita, tal como ela, que a correr assentava toda as suas espectativas nos saltos altos e confusos que pela calçada lá se iam desequilibrando. Precisava de esquecer, de soltar as angústias e as vontades, precisava de se equilibrar. A rua desenhava-se agora pálida como se o fim de tarde a tivesse cansado, era um beco, apenas um beco, monstruoso e fascinante.

Parou devagarinho à porta da Carmo, enquanto sorria de satisfação pelos seus segredos, pelo beco que conhecia e que era para poucos.

Enquanto subia os dois degraus do rc, e afastava a roupa que desavergonhadamente secava à porta, chamava a medo o nome dela. Pousou as narinas de detergente na pequena janela que dava para a sala, com cuidado, para não se cortar num vidro partido, no calor de alguma paixão ciumenta e bêbada de fim de noite. Em cima do sofá, uma massa humana pesada e cansada, repousava inerte e sem barulho, no chão um cão de luta bébé, brincava com um rapazito que sorria as primeiras maldades, enquanto atiçava o cão inocente para cima de dois bébes que choravam a fralda suja e a falta de atenção.

O3.15 da manhã, Margarete largou o espelho com pena e atirou o corpo eléctrico e feliz para dentro da primeira casa de banho que vagou.

Encheu o cúbiculo de deteminação e a imunda tampa da sanita de cocaina da má, os joelhos tocaram o chão frio e molhado enquanto mergulhava o focinho contente na droga. Depois de lamber a tampa sem nojo, sentou a confusão que sentia na merda que os outros tinham deixado. As meias escorriam para os mágnificos sapatos, a única coisa de mágnifico que restara. Tentou sorrir, falar, parar de pensar... mas nada... de qualquer forma estava linda, tinha a certeza. Pegou no copo esquecido no chão frio e molhado e engoliu toda a amargura que sentia, toda a solidão chata que não a largava. Puxou as cuecas e os collants a pingar para cima enquanto tentava ler o que estava escrito na porta;

“Se queres foder, liga-me 92 4451816”

“ Amo o Paulo Amo o Paulo Amo o Paulo”

“ Por esta parede acima vai um caracol abaixo, se ele cair é porque a parede estava torta”

“ Reggae man”

“Somos gajas que gostam de comer gajas Liga-nos fazemos tudo 98 654 1232”

“Free WILLIE”

“ Amo-te desesperadamente 99 1843699”

19.22 minutos- “Carmo!”

O rapazito voltou a sua curiosidade para porta, os bébés calaram-se, o cão descansou mas o corpo esquecido no sofá não se mexeu.

A Carmo era uma mulata loura, às vezes ruiva, de tranças, tótós; o cabelo crespo variava de tamanho quase diáriamente, entre cortes radicais e longas extensões sintéticas, ao contrário do corpo que se mantinha sempre imenso e semi tatuado com desenhos e frases inacabadas. Tinha porém, um olhar original carregado de ódios e compaixão. Estudara pouco, a sorte com os homens também era pouca, os filhos eram muitos e os negócios da droga não prosperavam, apesar de manterem as crianças longe das assistentes sociais. Era uma boa mulher, com uma bonita e enigmática cara infantil, que tinha em si um peso que não lhe pertencia, fruto da pouca sorte e alguma teimosia.

“Carmo!”

“Ah és tu...Entra!”

“Desculpa estavas a dormir...”

“Estava só a descansar, a descansar”

“Estás bem?”

“Estou grávida. Querias alguma coisa?”

“ Queria.”

“Aqui não tenho nada. Tenho que ligar. O que é que queres?

“Uma. Achas que demora muito?”

“ Não é só ligar”

“ E é boa?”

“É do caralho”

19.57 minutos, Margarete deixou-se levar pelo desespero e pela rua escura, enquanto pensava, como é que arranjava uma grama de coragem para o jantar com o amor desesperado que lhe fazia tão mal, e já que era para lhe fazer mal, fazia logo tudo de uma vez e sempre se divertia mais...pronto, estava decidido transformava a crise em festa e tudo ia correr bem.

Tinha deixado a Carmo no meio de telefonemas inuteis e promessas para o dia seguinte, fizera ela também alguns telefonemas inuteis sem qualquer tipo de promessa, restava a “Curva”.

21.00 em ponto, Margarete entra no restaurante de sempre com o coração esperançado e a cabeça no ar.

“Tia Odete, ele já chegou?”

“Não filha, senta-te na mesa ali do canto que ele deve estar a chegar”

“Eu hoje quero uma mesa no meio. O meu comportamento está bom não está?”

“Está filha. Senta-te ali então.”

“Tia Odete, ele ainda não chegou, pois não?”

“Não filha, ele deve estar a chegar...”

Margarete fixou a pequena mesa com olhos e os saltos revirados, e deixou cair o corpo bem comportado na cadeira de metal, deixou cair o corpo bem comportado bem à vista dos olhares de metal.

04.02, chegou uma ambulância sem pressa. No tumulto de tantos nós perdidos no meio da noite, destacava-se a simpática desconhecida do lado, que gritava os louros de a ter descoberto; discretamente branca, com os bonitos saltos partidos, com o coração partido, dona de uma pequena espuma que lhe sorria boca abaixo, as narinas rasgadas de vontade, as perna abertas de vontade e um macio lenço roxo preso ao pescoço, que pendurado no candeeiro dava um pouco da sua luz ao mundo.

“ Meu , tive que entrar...as gajas levam dez horas na casa de banho, parti a porta tás a ver?! E a gaja tava lá, roxa meu, com um lenço roxo meu,...foda-se...”

A “Curva”, só se chama curva, porque fica numa curva, e a imaginação do

povo no dia em que a baptizaram, estava ou cansada ou de férias...ou inconsciente.

Tantos os seus sapatos como o seu carácter não se davam bem com “Curva”; tudo era escorregadio, anónimo, apressado, sem réstea de delicadeza. Margarete achava que até no crime se devia ser delicado, por isso tinha tanto amor pela Carmo, que mesmo na parceria do negócio, se mostrava grande e semi nua, como se tivesse saído de uma enorme piscina de doçura transparente, para cair num monte de lama familiar.

Já o Zarolho e o Alex..., apesar de nunca os ter visto, apostava que o Zarolho era só Zarolho e o Alex proválvelmente não era nada, já que tinha dois olhos como os demais.

Rápidamente descobriu, que na “Curva”, havia a “Escada”, rápidamente descobriu também que para ser bem-sucedida na “Curva”, era melhor entrar na “Escada”. Com as notas suadas enroladas na mão seca de desprezo, sentou-se esquecida no degrau, enquanto a examinavam, ela examinava o material; beijou o Zarolho na boca, enquanto o Alex sorria dois dentes podres à espera da sua vez, deixou que lhe espreitassem a roupa interior enquanto somava miligramas ao sujo pacote branco.

20.41 saiu do degrau da escada da curva, confusa e estupefacta mas estranhamente mais calma e indiferente. Passou a mão pelo cabelo e pelas ideias, pousou-a dentro da mala atafulhada de vontades e papeis sem destino para procurar o macio lenço roxo e limpar-se finalmente de tanta baba impiedosa.

03.32 da manhã, Margarete tinha organizado um imundo e minusculo mundo no espaço que comportava aquela casa de banho; as pinturas, a droga, os sapatos destruidos, os papeis da carteira, tudo metódicamente misturado com as beatas, os pensos higiénicos embrulhados em papel higiénico, aliás a palavra de ordem era higiénico, a grande limpeza que precisava fazer à alma, a desinfecção que queria nos sentimentos. Na cabeça uma ideia fixa torturava-lhe aquele conforto quase caseiro “Amo-te desesperadamente 991843699”. Quem seria aquele ser maravilhoso que a amava em todas as circunstâncias e em todos os locais... Como é que ele sabia como encontrá-la e o que lhe dizer...Só podia ser porque o seu comportamento era bom, só podia ser isso...Comovida deixou cair as lágrimas como se fossem migalhas depois de uma imensa refeição...991843699...991843699...

“Tenho pena das palavras que não te disse, quando não te vi chegar.

Tenho pena de te adivinhar quando não estás , de chegar antes, despenteada, com a estonteante maquilhagem preversamente escondida, com pena de ter pena de nós que nem sei quem somos, perdidos numa praça que nunca vi, sem nunca nos termos visto. Manchei-te com o meu nome anónimo, jamais serás o mesmo; as ruas encontram-te para me encontrares, levas-me escrita na tua retina confusa por não me veres, com pena de não me veres.

Estás exacto no meu coração alterado, apertado comigo debaixo dum tímido chapeu de chuva vermelho e remendado, que teima em descansar naquela mesma praça orgulhosa que nos espera.

Que pena tenho de te conhecer porque sei que nalgum dia, nalguma altura em qualquer praça, vou ter que te deixar, nem que seja porque o sinal mudou e passaste primeiro,ou porque o sol cansado caiu na minha cara cansada e por segundos não te consegui ver, talvez até porque o rio, hoje, está mais brilhante que eu...que pena tenho se quando te encontrar me desencontrares, ou notes que sou distraída, que te posso perder infantilmente, como alguém pequeno que chora aos soluços, com pena do brinquedo que partiu. Como alguém grande que chora aos soluços com pena do amor que perdeu,... ali naquela praça, onde nunca nos encontrámos e por isso morremos de pena.”

21.38, “Margarete!!!”

“Hei!”

“Estás linda!”

“ Estou triste, maravilhosamente triste.”

“ O gajo ainda não apareceu? Vim assim que tu ligaste.”

“Não é por causa dele, nem por causa de nada...estou só triste”

“Mas estás linda!”

“Estou?”

“Sim, claro que sim. Tens alguma coisa?”

“Estás com sorte, ficas com o correspondente aos apalpões, nem é tão pouco.”

“O quê?”

“Nada... um brinde ao Zarolho e ao Alex!”

“Quem são esses?”

“ Sei lá.”

“ Então saúde!”

“A ti Lídia!”

03.55, Margarete sentia o cérebro diluir-se pelo ar e os cabelos emaranhados no seu destino, emaranhado por natureza. Para quê aquela estupidez, aquela inutil corrida contra a sua existência? Por causa de uma merda de amor que nunca a amara, ou por falta de ocupação? Ela era estranhamente feliz, pelo menos quando estava distraída, ela era profundamente feliz, tinha um riso que teimosamente lhe tomava conta dos pensamentos mais tristes; era quase crónico, desde pequena que tudo lhe dava vontade de rir, eram pequenos surtos de permanente bem estar, com os anos só com a cabeça no ar é que tinha felicidade na terra, mas não era razão...para além de que tinha voado toda a noite...

O excesso de concentração provocou-lhe algumas lágrimas sem sal, doia-lhe tudo, não sentia o pescoço nem que direcção tomar, esperava entorpecida a ambulãncia ensurdecedora. Queria ser pequena e usar sapatos abotinados, fumar o primeiro cigarro tonto, carregar no baton e nos beijos, abraçar a mãe que desertara da vida há muito, ouvir rádio, sintonizar o rádio, sonhar com viajens sem fim e nunca mais acabar com o cérebro a diluir-se pelo ar e os cabelos emaranhados no seu destino, emaranhado por uma natureza urbana, que ela desconhecia mas que não a largava com perguntas e protagonismos.

“Meu a gaja vai morrer?”

“Não se mexa que pode entornar”

“ Alguém sabe quem é a figura triste... que não larga a figura que está no chão?”

“Eu fiz um curso de primeiros socorros e você faz o quê?”

“ Free Willie!!!”

“ A menina está bem?”

À parte do pescoço alheio a qualquer vontade, todo o resto do seu corpo estava borbulhante de vontades; vontade de sair dali rápidamente, vontade de encontrar o olhar louco da Lidia entre os olhares daquela multidão sádica e curiosa.

03.34 da manhã, no meio dos seus destroços pessoais, com alguma raiva, generosas distracçãoes e uma ideia fixa na cabeça; ...991843699...

“Tou?!, Estou sim?!”

“ Sabia que te ia ouvir hoje.”

“A diferença entre ti e o resto do mundo é que tu sabes tudo...E eu estou cheia de vontade de rir e sei muito pouco...quem és tu?

“Alguém que te ama desesperadamente...não foi isso que tu pediste, não só nisso que tu pensas? Ninguém entende não é? Acham-te uma romântica sem solução, uma carente profissional, uma desiquilibrada do quotidiano, uma perdida na vida adulta...queriam-te de óculos, a chorar alguma leitura propedeutica pela cara abaixo, com vida de nojo, a funcionar sem nojo, a produzir muito, a sonhar económicamente e às escondidas e sóbria, especialmente sóbria, que as alucinações e as crenças são para quem se consegue olhar no outro dia de manhã.”

“..........ainda estou aqui......”

Basileia Romão, a mulher que viu o astro e não sobreviveu.

Tenho quarenta e oito anos de fertilidade, quarenta e oito de pé e moro no nº quarenta e oito, ali na rua de baixo. À parte disto nada mais coincide. Nem os sacos de aspirador, nem os amantes, nem a barriga vazia de filhos e refeições, nem mesmo a identidade, sim porque no cartão enganaram-se e trocaram o “i” por “e”, e tive que renascer “Baseleia”.

Movimento-me na cidade áspera, devagar, para não tropeçar nos pés que desde os guerreiros doze anos abalam o meu metro e quarenta e oito. Sonho com o astro. Sonho muito. Sofro pouco. Tenho bom feitio e gosto de palavrões, os palavrões não secam a boca nem as ideias.

Basileia desce a rua, arrastando aqueles pés emprestados, confusos de tanto erraram caminhos, descomunais. Bate o pé na calçada e no destino como se tivesse tempo para se atrasar, como se pudesse refazer caminhos, inaugurar estradas, como se pudesse, a qualquer momento parar. Na cabeça bate uma história antiga, no coração bate um amor imenso sem destinatário, no estômago bate-se a fome com a fome e ... “Merda, afinal onde é a morada tal, do trabalho tal, para falar com fulano de tal, a tal vitrine dos bordados em seda, com o tal anúncio: “Precisa-se de mãos de fada que saibam bordar”. A cidade segue o seu rumo,mesmo quando não estamos nela; e eis a maldita loja, com glorioso escrito alusivo às mãos de fada.

Um homem sentado ao balcão come um frango sem piedade, a boca escancarada num sorriso de satisfação e o corpo escondido num inacabar de bordados inacabados. Basileia atravessa as tábuas tímidas em dois passos.

“Vim por causa do anúncio”.

O homem sem responder, aperta-lhe as mãos entres as suas, gordas e engorduradas, como se procurasse desconjuntá-las tal qual havia feito ao frango despedaçado em cima do balcão. Após alguns segundos, da boca escancarada e insistentemente sorridente saiu um “não”, simplesmente um “não” que nem veio seguido de um “ lamento” com sabor a frango.

Basileia saltou para a rua, com o corpo consumido por aquelas três letras, que encerravam as suas esperanças de transformar as suas mãos em qualquer coisa que se orgulhasse, tudo o que tinha de fada, tinha sido desprezado por um homem de boca rançosa e sorriso escancarado, e ficado atirado em cima de umas tábuas tímidas e completamente anónimas. Olhava as mãos, que sabe-se lá porque justiça divina, eram docemente pequenas e misteriosamente perfeitas, uma verdadeira dádiva onde se depositava toda ela, uma salvação, pensava até há pouco.

Novamente entregue às suas passadas doídas, largou-se pelas ruas como se se pudesse despenhar nalgum endereço que lhe solucionasse, não a falta de trabalho, mas que emprego dar à alma.

Acabou num café, e por lhe faltar qualquer tipo de vontade, segurou nas pérolas, a que outros chamavam mãos, infinitos copos repletos de bebidas em que os sabores apenas serviam para desculpar a pesada quantidade de álcool. Quando perdeu a força nas mãos, que afinal não a sustentavam de forma nenhuma, deixou cair a cabeça confusa, enquanto a boca trôpega, babava a sua desgraça para cima da mesa babada de profissão.

Nunca entendera, o porquê de tanto mau estar, está certo que os pés incompreensivelmente gigantes lhe deformavam os anseios de elegância, mas dois simples pés não poderiam acabar com a existência de uma pessoa inteira, claro que não, Basileia tentava, do fundo do seu alcoólico oceano, pensar positivamente, sim, ela sentia esse esforço como um gigante passo para a modernidade, ser positiva, há que ser positiva..... Mas o que é que tem de positivo, chegar a qualquer sítio segundos antes de o ver, pisar quem está do outro lado da esquina, lavar os pés na banheira, ter tapetes feitos por encomenda, ter sapatos feitos por encomenda, ter uma vida que nunca encomendou? Se as mãos não fossem a sua esperança, talvez pudesse usar o fetiche sexual que tantos encerram nos pés, para se transformar numa “porno feet star”. Mas tal, nunca lhe passou pela cabeça nem pela libido, enfim, questões de educação; “ter sempre os pés bem assentes na terra,... mesmo que a terra ceda”.

De qualquer forma, esta angústia ortopédica não justificava o cansaço, a baba seca na mesa, o vazio da cadeira do outro lado da mesa, a sua presença naquela mesa, faltava-lhe, entre tantas coisas, um sonho. Mas para sonhar, há que ter mãos para agarrar o sonho, e as dela, tinham acabado de perder a força, tinham sido cortadas por não serem de fada, e é fundamental ter qualquer coisa de fada para concretizar um sonho.

“ Por hoje chega, vamos a levantar que temos que fechar!”

Os seus olhos arderam de desilusão e espanto, a cabeça levantou-se comovida e indefesa, a boca calou-se como uma cola velha, às mãos não ocorreu nada, mas os pés, um em particular, se não estou em erro, o direito, apossou-se daquele direito laboral como se fosse uma máquina de guerra, um rolo de calcar cimento, um felino maneta, sem unhas, sem vida, ameaçado, humilhado, de circo, dos desenhos animados, e num ápice, aquele arquipélago amarrado por uma légua de atacador, atacou a indefesa presa; o empregado de mesa, os que tinham vida, os que tinham horários, os que tinham quem os esperava, os que para sofrer, nunca tinham colado a boca e as esperanças, a uma suja mesa de café. Por breves momentos, Basileia viu um astro, louro, quente, a furar o céu, sentiu-se bem, sentiu-se linda, sentiu-se gente, gente grande, gente indispensável, gente admirada, gente admirável, de repente pareceu-lhe que o seu sonho era simplesmente pisar o mundo, tal e qual como fazia com aquele crânio assalariado e atrasado, para uma anónima família de actos e passos comedidos. Quando os miolos petulantes do indefeso empregado de mesa, estavam quase espalhados no chão, o patrão apareceu, e com um simples urro, expulsou o poder de Basileia Romão para o meio da rua.

Depois de uma noite profundamente esquecida, B. acordou a rir às gargalhadas, como se rir fosse a única coisa que soubesse fazer, como se uma pena universal não parasse de lhe fazer cócegas nos pés. Rir...pés..., só isso já era cómico...Mas como? Quando o corpo ficou exausto, ela recostou-se, acendeu um cigarro, e concluiu, sem fazer ideia porquê, que o seu sonho, estava no seu pesadelo; pés, pés, pés, pés............. Era neles que residia toda a sua força, todo a sua esperança, toda a sua vida, os seus carrascos, eram o seu caminho, a sua força, ela própria. Por momentos amou a sua aberração, como quem ama um filho. Os momentos transformaram-se em dias, anos, em realidade infinita e para sempre, a sua aberração foi amada como um deus. Tudo isto seria lindo, se Basileia Romão não tivesse uma certa baba colada ao canto da boca, que lhe pedia practicidade para desaparecer. Tudo isto seria lindo, se Basileia Romão não tivesse que agarrar o seu sonho, se não com as mãos,.... com os pés.

Estava tudo tão claro, quem quer mãos de fada se pode ter pés de Golias, quem quer uma fragilidade, se pode ter uma força, quem quer ser mais um súbdito, se pode ser Rei? Ninguém. Quando o corpo, mais uma vez ficou exausto, ela recostou-se, e mais uma vez fumou um cigarro; tudo estava claro.

O dia seguinte amanheceu numa placa, presa ao nº quarenta e oito, da rua de baixo, onde dizia: “ Mulher dotada de pés ímpares, alarga pares de sapatos, sem recibo”
Uma semana depois, a casa tinha sido invadida por uma multidão de sapatos, que agarrados aos pés de Basileia sucumbiam, mudavam de forma, moldavam-se aos passos de qualquer pé, de qualquer baile, de qualquer calçada, de qualquer profissão, de qualquer cansaço.

O início tinha sido algo trabalhoso; a sala fora esvaziada, ficando apenas um velho e tímido sofá a fazer companhia a metros de soalho nu, foi feita uma tabela de preços cobrados ao passo e nos casos difíceis ao km.

Os dias transformaram-se em eternas caminhadas, amarradas por atacadores anónimos, em cima de saltos desconhecidos, passos de borracha, de cabedal, felpudos, abertos, fechados, abotoados, sem pressa, enfim; intermináveis caminhadas fechadas na sala, encerradas em casa.

Aos poucos, o trabalho de moldar sapatos ao gosto e bem estar de cada um, havia moldado os pés de Basileia, sem qualquer misericórdia. Os que em tempos tinham sido apenas estupidamente gigantes, hoje eram estupidamente gigantes e tristemente deformados, lentamente massacrados, incertos, inchados, insuportáveis de olhar sem pena, sem pavor. Primeiro uma dor cobarde, fininha, escondida, que provocava um enjoo quase imperceptível não fosse o vómito alojado dentro da boca vazia de queixas e gemidos, atormentava-lhe os passos diários e corajosos, depois vieram as bolhas que lhe rebentavam os pés e a determinação, manchando de água e pus, os sapatos mais difíceis; um verdadeiro oceano de dedicação e esforço que boiaria secreta e infinitamente nos futuros passos daquela sapataria alheia, vieram também feridas de várias formas e profundidades, o sangue da profissão a pulsar no soalho cansado e por fim o calo do aprendizado cobriu-lhe os pés impiedosamente, os dedos uniformemente, deixando-lhe umas sobras de unhas para lhe lembrar, que sem garra não se vai a lado nenhum; uma tortura de cetim...

O tempo passou, e Basileia deu a volta ao mundo, sabe-se lá quantas vezes; não parou em lado nenhum, não fez compras, não escreveu postais, não visitou nada, nem ninguém, nem sequer saiu de casa, caminhou várias vidas no silêncio, sem sair dos seus pensamentos, das, hoje em dia, raras ansiedades, sem sair das suas léguas de vazio, sem sair fora do passo; uma vida vivida ao km, vivida no chão da sua sala nua, uma vida nua.

De qualquer forma, a barriga estava cheia, a rua já não chamava por ela, não fosse a vontade de voltar a ver o astro louro, quente, que a fez sentir tão bem, a história acabaria aqui.

A certa altura, desta trama, um certo quartel militar, achou por eficiência e curiosidade que o nº 48 seria a solução, para a tortura marchante de tantos soldados despropositados e alheios a tanto exercício incompreendido. Alguém lhes disse, que iam crescer e ser responsáveis, alguém lhes disse que mesmo que desconhecessem a pátria, esta, era algo a defender, alguém se quis defender, alguém lhes fez acreditar o quanto os seus medos eram de homem, as suas graças eram de homem, o quanto eles eram homens, o quanto o mundo precisava de homens assim. Bom, para quem tinha tal missão honrosa, gloriosa,.... inútil e mentirosa,... mas principalmente; honrosa e gloriosa, andar, simplesmente caminhar, não podia ser um problema. Mas, estranhamente, caminhar, para os prometidos heróis, era tão penoso, como conquistar os imensos condomínios que jamais lhes pertenceram, até porque sabiam muito pouco desse novo mundo a conquistar, e de qualquer forma matar o vizinho era bem mais fácil, que habitar aquelas “ botas da tropa”, aqueles arreios pedonais, aquele calo patriótico, enfim aquela horrorosa dor de pés que não vinha no menu do herói.
O quartel era pequeno mas honrado, e não podia sucumbir a mesquinhices, tais como um pé cheio de bolhas, calos, dores, e fragilidades caminhantes.

O capitão do quartel chorava a dor daqueles homens tão dotados, chorava também, alguns pares de pés que aniquilavam a valentia e magnifica postura, de homens tão valiosos para a segurança nacional.

Jornal O Cometa Diário 1ª Edição

NACIONAL

Foi hoje encontrado um regimento inteiro de honrosos servidores da pátria, morto em batalha desconhecida, num interior de um prédio no centro. Desconhecem-se os autores, ou as armas usadas, sabe-se apenas que sem excepção todos tinham o crânio esmigalhado e que não foram encontrados quaisquer vestígios de ideias no local. Teme-se que seja um atentado terrorista. Até ao fecho desta edição ninguém reivindicou a autoria.

E pela porta do “templo da Sra. dos Passos” entrou um verdadeiro regimento.

Basileia estática na sua “auto-estrada de Fátima” envergava um vestido repleto de logótipos e slogans; era hoje em dia uma mulher patrocinada por todo o tipo, de solas e palmilhas, cremes de pés, desodorizantes de pés, meias de descanso, sapatos ortopédicos, sapatos de desporto, aparelhos para as pernas, muletas e até cadeiras de rodas. Num chapéu torto enterrado na cabeça lia-se: “deixe os seus pés em pés alheios”

Depois de um milhar de suor, de uma milha de gemidos, a gargalhada rompeu com a música: “ se a bbbbbbbbbbbbb quer ser cá da malta tem que comer este chulé até ao fim.... “ e etc e etc ....B. ria por não saber o que fazer mais, encostou a cabeça à parede fria da sala quente mais de mil vezes, ofereceu café, cantou o hino nacional, chupou uns quantos sexos, mordeu umas quantas bocas, sem sair das botas, do alinhamento, da frente de batalha. Sucumbiu ao asno da corneta, que trauteou sei lá o quê, quando ela já nem sabia onde estava, e devagar, presa a uma alheia cueca militar, caiu aos pés e aos pontapés de um dos garanhões da frente de batalha.

O astro desenhou-se tímido no cérebro sem forma, o astro chamou-a sem sequer chegar a aparecer, e ela delicadamente esvaziou o sexo cheio de oportunistas saudosos de casa e gemeu um pedido de retirada. O trabalho estava feito e mais que feito e ela queria esquecer, que a vida não era só uma visão do astro quente e louro que a fazia sentir tão bem. Cuspiu pêlos e cabelos que lhe prendiam a boca e as palavras, até poder proferir: “vem astro que te chupo a ti também”. Sem qualquer tipo de fúria, a inexplicável luz quente e loura, desapareceu atrapalhadamente, como se não estivesse preparada para ser sugada pela sua protegida. Isto enquanto o esquadrão cantarolava em direcção ao quartel, em direcção à derrota, em direcção à morte.........

Basileia sentada no chão, chorou até encher os pés de ternura e desmazelo, enquanto jurava ser feliz, enquanto se desculpava pela jura, enquanto se encaminhava para a porta.

Jornal O Cometa Diário

NACIONAL

Desconhece-se ainda, a origem do ataque feito ao regimento, sabe-se no entanto, que várias pegadas de tamanho pouco usual foram encontradas no local, e nas vitimas. Uma vasta lista de frentes, ligas, organizações, grupos de guerrilha e alguns particulares têm vindo a reivindicar o atentado ininterruptamente. À luz de tal confusão, o estado deu o caso por encerrado, com uma breve e comovente cerimónia, alguns tiros para o ar, algumas flores, muitas lágrimas e uma estonteante dignidade.

Basileia tinha o coração igual à moral do país; confuso, perdido, amassado, espezinhado, como se fosse um jornal de ontem. Ninguém lhe tentara explicar quem ela era, e por sua vez B. não procurara nenhuma explicação. Guardava em si uma memória limpa de uma vida limpa, por vezes tortuosa, por vezes carinhosa, muitas vezes sozinha, tantas vezes perdida, mas essencialmente destemida. Agora tudo se transformara inexplicavelmente: o medo reinava livremente dos “pés” à cabeça, as questões maltratavam as suas certezas e apesar disto tudo, sentia um bem-estar sem fim.

Resolvera dar-se uma folga, pela 1ª vez, desde que montara o seu negócio; entrou na sua imensa sala de sapatos de baile pendurados nos pés, eram lindos, brilhantes, altos e decididos a calcar qualquer salão, eram pelo menos oito números abaixo do seu, com as fininhas tiras prateadas destinadas aos tornozelos, pendentes, em pânico, com ideia de serem pisadas por aqueles pés, hoje descansados e de folga.

A rotina era essencialmente a mesma, Basileia atacava os metros de soalho, como se os alimentasse a passos, a diferença era que normalmente pensava no sucesso da sua tarefa, e hoje pensava em si mesma, simplesmente em si mesma. Sabia pouco o que fazer quando não estava em cima de calçado alheio, e havia adquirido o hábito de caminhar sem parar.

Jornal O Cometa Diário 1ª edição

PÁGINA CRIMINAL

Continua à solta o agora famoso assassino em série, conhecido por “Légua”, a quem já é atribuído, o” crime do quartel”. A sua última vitima, uma mulher de trinta anos, que dava pelo nome de Paloma, foi encontrada ontem à noite, nuns arbustos perto do Baile da Cidade. À parte do crânio destruído e da ausência das duas tiras prateadas de agarrar ao tornozelo, provavelmente arrancadas, dos sapatos, foi encontrado no local vestígios de uma luz estranha.

No seu intimo, Basileia sabia que aquele astro louro e quente era responsável pelo seu profundo bem estar, sabia também que tinha uma força esmagadora que era impulsionada por ele, ou seria a sua força esmagadora que chamava o astro que tanto bem lhe fazia?

Desceu secretamente, daquele monumento prateado, e por segundos imaginou-se dona e senhora de um tal par de sapatos, de um tal par de sonhos, de um imenso baile, enfim dona de uma tal história de cinderela.
Num instante, ela ria tanto, que se permitiu a sentar tal histeria, no sofá há tanto esquecido naquela sala, onde ela própria se tinha esquecido de tudo. Mordeu as finas tiras de prata, como se de um aperitivo raro e caro se tratasse, sonhou com o astro, fazia tempo que não o via. Pensou em chamá-lo, desejou desvairadamente chamá-lo, levantou-se,... e foi chamá-lo.
Sabe-se lá porquê, aquela luz que só a ela lhe pertencia, e de quem ela era escrava, parecia responder, apenas quando Basileia se erguia vitoriosamente ao mundo, quando a sua dor de pés, esquecia a dor e caminhava triunfante e feliz por cima de qualquer rua, qualquer pavimento, qualquer alegria,... de qualquer cabeça.

Desse dia em diante, foi impossível à produção deste conto, reunir a quantidade de material que foi publicado sobre Basileia Romão vulgo “o Légua”, as notícias de crânios calcados, inundaram a imprensa e as ansiedades dos habitantes. O Jornal “O Cometa Diário”, hoje um império milionário por se ter especializado em crimes por pisadela, lançava um concurso ao serviço da comunidade, a que chamou “ a Cinderela Perneta”, que consistia em trazer o maior pé amputado que se conseguisse, para um pé 48, havia prémios capazes de mudar a vida de um cidadão para sempre. Enfim, tudo tinha entrado numa normalidade quase romana, não fosse a insistente luz que teimosamente ocupava o céu dia e noite e para qual ninguém tinha explicação ou especial curiosidade.

Passaram anos, Basileia Romão caminha na sua sala gasta, no seu soalho gasto, na sua vida gasta, não por excesso de trabalho mas por falta dele, desenha uma longa marcha de impaciência, de cansaço, como se parar fosse sinónimo de perder o chão.

Relembra devagar os tempos de glória, tempos em que a sua luz, hoje gasta e diluída no firmamento, havia vencido todas as outras luzes, tempos em que o astro louro e quente lhe enchia o corpo e o orgulho, como se de um gigante falo se tratasse, como se a vida fosse uma constante foda de mortes com orgasmos louros e quentes espalhados no céu para todos verem. Fumou um cigarro sem paixão, estava fraca como letreiro que em tempos pusera na porta, o negócio, tal como ela tinha falido. Estranhamente, entendeu que era o trabalho que a empurrava, era naqueles passos que se erguia, eram os caminhos domésticos; árduos e determinados, que faziam aparecer a tímida luz que emanava do astro tão louro e tão quente, e só assim realizava os prazeres da sua existência calcada, calcando ela também as existências alheias. Tudo tinha mudado e era culpa dela própria, de mais ninguém, ela suscitara todas aquelas notícias, toda aquela malfadada publicidade, aquele infeliz concurso...

Até à data o concurso “ A Cinderela Perneta”, nada mais tinha conseguido que um misero pé 46, e uma enorme percentagem de mutilados que se arrancavam pelos tornozelos na esperança de conquistarem o prémio capaz de mudar a vida de qualquer cidadão. Na realidade o único cidadão que viu a sua vida mudada foi Basileia Romão, porque com os pés foram os bailes, os passeios, as marchas, e obviamente os sapatos para alargar, para cuidar para dar forma, para deformar, para amar como se ama a um filho que não sabe como pisar, como trilhar os caminhos da vida.

Habituada a ser desigual B. olhava a sua deformidade com atenção, desta feita a diferença já não se encontrava no tamanho mas na quantidade; ninguém na sua terra tinha dois pés para se equilibrar, ou no seu caso para desequilibrar a sua fraca auto-estima. Era com vergonha, que na rua ostentava um andar direito, um pé à frente do outro, manca apenas na solidão do seu par de sapatos que em nada se pareciam com sapatos ímpares que com ela se cruzavam. Escondida em casa e nos inúmeros cigarros que fumava sem solução, foi acometida de uma feliz decisão.

Com olhos quentes de uma felicidade próxima, escolheu na sua memória os passos mais bonitos que dera, o bocadinho da sala que mais gostava de ver, lembrou-se carinhosamente do seu andar desajeitado, da sua vida desajeitada, como se tudo isso se despedisse, as lágrimas caiam-lhe pela vida abaixo, como se duma saudade se tratasse, como se tudo se fosse embora para nunca mais voltar, era o fim de qualquer tristeza que ainda lhe coubesse...ainda teve tempo de ver ao longe o astro a ir embora.

JORNAL “O COMETA DIÁRIO”(PERDEMOS A CONTA À EDIÇÃO)

1º página

“É com avassaladora alegria que o nosso jornal tem finalmente a honra de atribuir o prémio do concurso A Cinderela Perneta. A vencedora chama-se Baseleia Romão e após a análise ao pé entregue confirmou-se ser o pé 48 que tanta confusão causou. Ao ser questionada sobre o seu futuro e sobre as mudanças que o prémio vai operar na sua vida, Baseleia afirmou que primeiro que tudo o que é quer tirar férias, e que depois tem intenções de abrir uma fábrica de próteses, disse também que está muito habituada a trabalhar directamente com as pessoas e que já não saberia como viver de outra maneira. Curiosamente ainda nos confessou que vai mudar de nome para B.”

sábado, 1 de agosto de 2009

Textículos

in “Tua”

O que dizes não me interessa, é o que calas que me prende.
E é assim que te amo; presa no que não sei, agarrada ao que não me interessa. Se um dia falares, fá-lo devagarinho, que eu nunca me consegui prender ao que conheço e alimento-me de palavras vazias. Nem saberia onde por tanta verdade, sabes, por aqui escasseia o espaço e a prateleira da verdade é muito comprida e bicuda, também não iria bem com os móveis, que estão feitos à minha medida: metros de esperança no que calas. Traz-me antes uma prenda, qualquer coisa desinteressante mas bonita, que eu ainda sou menina e acredito que o amor não se diz mas pode-se oferecer. Ou então, volta mais cedo que sem ti o dia custa, mas não digas que to pedi, finge que foi de repente; ias na rua e sem causa, nem razão não paravas de pensar em mim. Diz que te fez falta o meu riso infinito, ou melhor, diz que não vives sem o meu bolo do lanche, aquele que queima sempre um bocadinho, mas só no fundo. Se não te ocorrer nada, não fales que me podes assustar, senta as tuas mentiras no meu colo e deixa-me tratar delas, eu até acho que ainda tenho um resto de pomada para a alma. Se o problema for transporte, apanha o táxi que te espera na esquina desde ontem, eu sei meu querido, que eles andam sempre atrasados. Se eu chorar, não repares, é que ultimamente tenho o coração cheio de poeira que não pára de me chegar aos olhos, finge que foi por descascar cebola, finge que não fazes falta, que eu nem te esperava, que a surpresa foi tão grande,
que sem querer soltei um pulso com a faca da cozinha, e sem querer o outro, finge que não vês que estou numa banheira de água doce presa ao teu silêncio, ao que queres e não dizes, ao que sentes e não ofereces.
Se optares pela prenda, eu gostava que fosse um baton vermelho, vermelho combina com risos infinitos.
TUA


Devolvo-te o rio comigo dentro.
É no rio que tudo passa. É tarde e tu não chegas. Estás algures mas eu não estou. Na mala tantas missivas com destino, e eu sem destino nenhum. Uma mala cheia de palavras gastas, de cigarros por fumar, de razões para ir embora, uma mala cheia de medo de o ser, pelo tanto que me pesa. Eu não uso maquilhagem e é pena pois parece que me favorece, mas guardo num bolso apertado, em cima da alça cosida ao ombro, um corajoso lápis de olhos que me serve para escrever nas paredes.
Tu não vens e eu não consigo habituar-me. Não fui eu, mas as margens que me empurraram para ti, para dentro daquele rio onde tu corres distraído, onde nunca me esperas porque não tens tempo, eu sei, a corrente é forte e leva-te para longe, sem querer desembocas sempre numa cidade nova e nem te dás conta que há mil anos que me sento naquela margem velha e paciente, na esperança que uma qualquer cheia te traga á tona da minha memória. Mil anos Tua, aprisionada na terra com desejo de água. Agora tens-me sem precisares voltar, sou saudade navegante, alma ensopada, deixei para trás, a mala e o ombro, o meu lápis corajoso mas que não escreve na água e um mundo de infinitas paredes vazias. O rio só tem chão, e um só sentido; o da partida. Prometo que não te incomodo, falarei baixinho e não me vou queixar do frio, talvez estranhe tanto viajar sem porto, mas será só no inicio, também não te pedirei companhia porque estarei contigo. Para sempre contigo, nesse enorme naufrágio que somos nós.
TUA


12.00: O despertador não tocou. Como se tivesse pudor em tocar o tempo.

13.35: Não vou a lugar nenhum, contudo faço as malas. O tempo continua intocável.

16.00: Há duas horas e meia que procuro qualquer coisa que preencha o vazio das malas. Há duas horas e meia que me vasculho, na esperança de ter o que levar comigo para nenhum lado em hora alguma.

18.00: Hoje, sei lá eu porquê, hoje é diferente e não dói nada mais por isso, não tenho por onde doer, está tudo inteiro, bem remendado, porém não pesa, talvez por isso tropeço com tanta facilidade. Mas não faço birras, choro pouco, o pouco suficiente para comprar o autocolante da C.H.P., como tu dizes: condição humana provisória.

18.05: Não te quero incomodar, mas se quiseres vir para o café..., dizem que é bom quente, que se perde o lugar na mesa se não se chegar a horas, ou então esquece tudo isso e vem por mim que não sei ao certo quanto tempo mais fico por cá, se é que alguma vez aqui estive. Tenho a casa arrumada para ti, limpa, vazia de todas as coisas, como deve ser; nada que perturbe ou desconcentre.

21.10: Tu não és o género de pessoa que caiba no esquecimento, não puseram o teu nome em nenhuma cadeira, então, sei muito pouco o que fazer contigo. O café esfriou há muito e o vazio higiénico da casa contaminou a minha bagagem; há sete horas e trinta e cinco minutos que tento fazer a mala, mas esqueci-me de fazer a vida, se calhar foi isso, há sete horas e trinta e cinco minutos que pesa a bagagem que não tenho, a vida que não tenho, se viesses podias fazer-me uma trança, como já disse outras vezes; ainda sou menina.

21.10 do dia seguinte: Fiz vinte e quatro horas de silêncio por todos nós, um luto pelas frases mal acabadas, pelo que não temos direito a dizer, pelo que dizemos com direito e ninguém ouve. Não me agradeças, eu não falo, ou muito pouco, e quando o faço é muito baixo. Sou oficialmente distribuidora de palavras, pornografia mal roçada nas portas dos outros, recados em cima dos tapetes da entrada, algumas espreitadelas pelas fechaduras destapadas e metros de assinaturas de ausentes, tudo coisas que não me cabem na mala.

23.50: Talvez não gostes de café, ou foi simplesmente falta de tempo.

02.08: Levo o teu corajoso lápis de olhos no bolso e na mala uma quantidade inimaginável de nada, absolutamente nada.

04.49: Desculpa se me vou assim, mas haverão outras vezes, mesmo que não o notemos. Seria tudo mais fácil se aqui estivesses, se os chapéus de chuva fossem de chocolate e chovesse todos os dias, se eu coubesse na mala, se tranças me ficassem bem, se as cartas fossem doces e se pudessem comer no caminho, seria tudo mais fácil se tivesse feito chá e se não me faltasse tudo, tudo.

04.50: Estou a caminho. Desculpa-me do tanto que esqueci.