Margarete entrou de rompante e de cabeça pela casa de banho adentro. Levantou a moral e olhou para o espelho, a alegria em pó escorria-lhe pelo nariz e a sua imagem branca ocupava todo o reflexo do espelho.
“ Chega-te para lá, foda-se” gritou a simpática desconhecida do lado, que tentava segurar o charme com um gritante baton vermelho, e que por falta de espaço já lhe gritava na cara toda.
Margarete, sorri-lhe um hálito cansado de whisky novo, envelhecido nos encontrões, no barulho, nos magníficos saltos que dera na pista de dança, enquanto fungava tanta felicidade nariz a cima. A outra continuou rosnar, ao mesmo tempo que punha a cabeça para baixo e abanava o cabelo forte e sem direcção. Mas Margarete já nem com um sorriso conseguia responder, tinha a boca presa, como se alguma peça se tivesse desapertado e todo o mecanismo deixasse de funcionar; nem rir, nem falar, comer estava fora de questão, para beber ainda se dava um jeito... mas não fazia mal porque ela estava simplesmente linda. Retirou do espelho mais uma confirmação de que estava realmente estonteante, profundamente drogada, totalmente bêbada e completamente feliz.
19.06 minutos, o telefone tocou mais apressado do que era habitual.
“Quero-te ver hoje.”
“ Onde?”
“Vamos jantar”
“No de sempre?”
“ Sim.”
“ A que horas?”
“Às nove.”
“Estarei lá às nove...Desculpas-me?”
“Não sei, depende do teu comportamento.”
“Amas-me?”
“Sim.”
“Desesperadamente?”
“Não sei, depende do teu comportamento.”
“Estarei lá às nove...”
“Até lá.”
19.22 minutos, Margarete não queria mais este amor, que a arrastava em súplicas, um amor de culpa nem ela sabia bem do quê, um amor de “amas-me?”, um amor “desesperadamente” sem amor.
19.23 minutos esqueceu o que tinha pensado há um minuto atrás e concentrou-se no seu amor desesperado, que ela jamais queria perder.
A rua era torta e bonita, tal como ela, que a correr assentava toda as suas espectativas nos saltos altos e confusos que pela calçada lá se iam desequilibrando. Precisava de esquecer, de soltar as angústias e as vontades, precisava de se equilibrar. A rua desenhava-se agora pálida como se o fim de tarde a tivesse cansado, era um beco, apenas um beco, monstruoso e fascinante.
Parou devagarinho à porta da Carmo, enquanto sorria de satisfação pelos seus segredos, pelo beco que conhecia e que era para poucos.
Enquanto subia os dois degraus do rc, e afastava a roupa que desavergonhadamente secava à porta, chamava a medo o nome dela. Pousou as narinas de detergente na pequena janela que dava para a sala, com cuidado, para não se cortar num vidro partido, no calor de alguma paixão ciumenta e bêbada de fim de noite. Em cima do sofá, uma massa humana pesada e cansada, repousava inerte e sem barulho, no chão um cão de luta bébé, brincava com um rapazito que sorria as primeiras maldades, enquanto atiçava o cão inocente para cima de dois bébes que choravam a fralda suja e a falta de atenção.
O3.15 da manhã, Margarete largou o espelho com pena e atirou o corpo eléctrico e feliz para dentro da primeira casa de banho que vagou.
Encheu o cúbiculo de deteminação e a imunda tampa da sanita de cocaina da má, os joelhos tocaram o chão frio e molhado enquanto mergulhava o focinho contente na droga. Depois de lamber a tampa sem nojo, sentou a confusão que sentia na merda que os outros tinham deixado. As meias escorriam para os mágnificos sapatos, a única coisa de mágnifico que restara. Tentou sorrir, falar, parar de pensar... mas nada... de qualquer forma estava linda, tinha a certeza. Pegou no copo esquecido no chão frio e molhado e engoliu toda a amargura que sentia, toda a solidão chata que não a largava. Puxou as cuecas e os collants a pingar para cima enquanto tentava ler o que estava escrito na porta;
“Se queres foder, liga-me 92 4451816”
“ Amo o Paulo Amo o Paulo Amo o Paulo”
“ Por esta parede acima vai um caracol abaixo, se ele cair é porque a parede estava torta”
“ Reggae man”
“Somos gajas que gostam de comer gajas Liga-nos fazemos tudo 98 654 1232”
“Free WILLIE”
“ Amo-te desesperadamente 99 1843699”
19.22 minutos- “Carmo!”
O rapazito voltou a sua curiosidade para porta, os bébés calaram-se, o cão descansou mas o corpo esquecido no sofá não se mexeu.
A Carmo era uma mulata loura, às vezes ruiva, de tranças, tótós; o cabelo crespo variava de tamanho quase diáriamente, entre cortes radicais e longas extensões sintéticas, ao contrário do corpo que se mantinha sempre imenso e semi tatuado com desenhos e frases inacabadas. Tinha porém, um olhar original carregado de ódios e compaixão. Estudara pouco, a sorte com os homens também era pouca, os filhos eram muitos e os negócios da droga não prosperavam, apesar de manterem as crianças longe das assistentes sociais. Era uma boa mulher, com uma bonita e enigmática cara infantil, que tinha em si um peso que não lhe pertencia, fruto da pouca sorte e alguma teimosia.
“Carmo!”
“Ah és tu...Entra!”
“Desculpa estavas a dormir...”
“Estava só a descansar, a descansar”
“Estás bem?”
“Estou grávida. Querias alguma coisa?”
“ Queria.”
“Aqui não tenho nada. Tenho que ligar. O que é que queres?
“Uma. Achas que demora muito?”
“ Não é só ligar”
“ E é boa?”
“É do caralho”
19.57 minutos, Margarete deixou-se levar pelo desespero e pela rua escura, enquanto pensava, como é que arranjava uma grama de coragem para o jantar com o amor desesperado que lhe fazia tão mal, e já que era para lhe fazer mal, fazia logo tudo de uma vez e sempre se divertia mais...pronto, estava decidido transformava a crise em festa e tudo ia correr bem.
Tinha deixado a Carmo no meio de telefonemas inuteis e promessas para o dia seguinte, fizera ela também alguns telefonemas inuteis sem qualquer tipo de promessa, restava a “Curva”.
21.00 em ponto, Margarete entra no restaurante de sempre com o coração esperançado e a cabeça no ar.
“Tia Odete, ele já chegou?”
“Não filha, senta-te na mesa ali do canto que ele deve estar a chegar”
“Eu hoje quero uma mesa no meio. O meu comportamento está bom não está?”
“Está filha. Senta-te ali então.”
“Tia Odete, ele ainda não chegou, pois não?”
“Não filha, ele deve estar a chegar...”
Margarete fixou a pequena mesa com olhos e os saltos revirados, e deixou cair o corpo bem comportado na cadeira de metal, deixou cair o corpo bem comportado bem à vista dos olhares de metal.
04.02, chegou uma ambulância sem pressa. No tumulto de tantos nós perdidos no meio da noite, destacava-se a simpática desconhecida do lado, que gritava os louros de a ter descoberto; discretamente branca, com os bonitos saltos partidos, com o coração partido, dona de uma pequena espuma que lhe sorria boca abaixo, as narinas rasgadas de vontade, as perna abertas de vontade e um macio lenço roxo preso ao pescoço, que pendurado no candeeiro dava um pouco da sua luz ao mundo.
“ Meu , tive que entrar...as gajas levam dez horas na casa de banho, parti a porta tás a ver?! E a gaja tava lá, roxa meu, com um lenço roxo meu,...foda-se...”
A “Curva”, só se chama curva, porque fica numa curva, e a imaginação do
povo no dia em que a baptizaram, estava ou cansada ou de férias...ou inconsciente.
Tantos os seus sapatos como o seu carácter não se davam bem com “Curva”; tudo era escorregadio, anónimo, apressado, sem réstea de delicadeza. Margarete achava que até no crime se devia ser delicado, por isso tinha tanto amor pela Carmo, que mesmo na parceria do negócio, se mostrava grande e semi nua, como se tivesse saído de uma enorme piscina de doçura transparente, para cair num monte de lama familiar.
Já o Zarolho e o Alex..., apesar de nunca os ter visto, apostava que o Zarolho era só Zarolho e o Alex proválvelmente não era nada, já que tinha dois olhos como os demais.
Rápidamente descobriu, que na “Curva”, havia a “Escada”, rápidamente descobriu também que para ser bem-sucedida na “Curva”, era melhor entrar na “Escada”. Com as notas suadas enroladas na mão seca de desprezo, sentou-se esquecida no degrau, enquanto a examinavam, ela examinava o material; beijou o Zarolho na boca, enquanto o Alex sorria dois dentes podres à espera da sua vez, deixou que lhe espreitassem a roupa interior enquanto somava miligramas ao sujo pacote branco.
20.41 saiu do degrau da escada da curva, confusa e estupefacta mas estranhamente mais calma e indiferente. Passou a mão pelo cabelo e pelas ideias, pousou-a dentro da mala atafulhada de vontades e papeis sem destino para procurar o macio lenço roxo e limpar-se finalmente de tanta baba impiedosa.
03.32 da manhã, Margarete tinha organizado um imundo e minusculo mundo no espaço que comportava aquela casa de banho; as pinturas, a droga, os sapatos destruidos, os papeis da carteira, tudo metódicamente misturado com as beatas, os pensos higiénicos embrulhados em papel higiénico, aliás a palavra de ordem era higiénico, a grande limpeza que precisava fazer à alma, a desinfecção que queria nos sentimentos. Na cabeça uma ideia fixa torturava-lhe aquele conforto quase caseiro “Amo-te desesperadamente 991843699”. Quem seria aquele ser maravilhoso que a amava em todas as circunstâncias e em todos os locais... Como é que ele sabia como encontrá-la e o que lhe dizer...Só podia ser porque o seu comportamento era bom, só podia ser isso...Comovida deixou cair as lágrimas como se fossem migalhas depois de uma imensa refeição...991843699...991843699...
“Tenho pena das palavras que não te disse, quando não te vi chegar.
Tenho pena de te adivinhar quando não estás , de chegar antes, despenteada, com a estonteante maquilhagem preversamente escondida, com pena de ter pena de nós que nem sei quem somos, perdidos numa praça que nunca vi, sem nunca nos termos visto. Manchei-te com o meu nome anónimo, jamais serás o mesmo; as ruas encontram-te para me encontrares, levas-me escrita na tua retina confusa por não me veres, com pena de não me veres.
Estás exacto no meu coração alterado, apertado comigo debaixo dum tímido chapeu de chuva vermelho e remendado, que teima em descansar naquela mesma praça orgulhosa que nos espera.
Que pena tenho de te conhecer porque sei que nalgum dia, nalguma altura em qualquer praça, vou ter que te deixar, nem que seja porque o sinal mudou e passaste primeiro,ou porque o sol cansado caiu na minha cara cansada e por segundos não te consegui ver, talvez até porque o rio, hoje, está mais brilhante que eu...que pena tenho se quando te encontrar me desencontrares, ou notes que sou distraída, que te posso perder infantilmente, como alguém pequeno que chora aos soluços, com pena do brinquedo que partiu. Como alguém grande que chora aos soluços com pena do amor que perdeu,... ali naquela praça, onde nunca nos encontrámos e por isso morremos de pena.”
21.38, “Margarete!!!”
“Hei!”
“Estás linda!”
“ Estou triste, maravilhosamente triste.”
“ O gajo ainda não apareceu? Vim assim que tu ligaste.”
“Não é por causa dele, nem por causa de nada...estou só triste”
“Mas estás linda!”
“Estou?”
“Sim, claro que sim. Tens alguma coisa?”
“Estás com sorte, ficas com o correspondente aos apalpões, nem é tão pouco.”
“O quê?”
“Nada... um brinde ao Zarolho e ao Alex!”
“Quem são esses?”
“ Sei lá.”
“ Então saúde!”
“A ti Lídia!”
03.55, Margarete sentia o cérebro diluir-se pelo ar e os cabelos emaranhados no seu destino, emaranhado por natureza. Para quê aquela estupidez, aquela inutil corrida contra a sua existência? Por causa de uma merda de amor que nunca a amara, ou por falta de ocupação? Ela era estranhamente feliz, pelo menos quando estava distraída, ela era profundamente feliz, tinha um riso que teimosamente lhe tomava conta dos pensamentos mais tristes; era quase crónico, desde pequena que tudo lhe dava vontade de rir, eram pequenos surtos de permanente bem estar, com os anos só com a cabeça no ar é que tinha felicidade na terra, mas não era razão...para além de que tinha voado toda a noite...
O excesso de concentração provocou-lhe algumas lágrimas sem sal, doia-lhe tudo, não sentia o pescoço nem que direcção tomar, esperava entorpecida a ambulãncia ensurdecedora. Queria ser pequena e usar sapatos abotinados, fumar o primeiro cigarro tonto, carregar no baton e nos beijos, abraçar a mãe que desertara da vida há muito, ouvir rádio, sintonizar o rádio, sonhar com viajens sem fim e nunca mais acabar com o cérebro a diluir-se pelo ar e os cabelos emaranhados no seu destino, emaranhado por uma natureza urbana, que ela desconhecia mas que não a largava com perguntas e protagonismos.
“Meu a gaja vai morrer?”
“Não se mexa que pode entornar”
“ Alguém sabe quem é a figura triste... que não larga a figura que está no chão?”
“Eu fiz um curso de primeiros socorros e você faz o quê?”
“ Free Willie!!!”
“ A menina está bem?”
À parte do pescoço alheio a qualquer vontade, todo o resto do seu corpo estava borbulhante de vontades; vontade de sair dali rápidamente, vontade de encontrar o olhar louco da Lidia entre os olhares daquela multidão sádica e curiosa.
03.34 da manhã, no meio dos seus destroços pessoais, com alguma raiva, generosas distracçãoes e uma ideia fixa na cabeça; ...991843699...
“Tou?!, Estou sim?!”
“ Sabia que te ia ouvir hoje.”
“A diferença entre ti e o resto do mundo é que tu sabes tudo...E eu estou cheia de vontade de rir e sei muito pouco...quem és tu?
“Alguém que te ama desesperadamente...não foi isso que tu pediste, não só nisso que tu pensas? Ninguém entende não é? Acham-te uma romântica sem solução, uma carente profissional, uma desiquilibrada do quotidiano, uma perdida na vida adulta...queriam-te de óculos, a chorar alguma leitura propedeutica pela cara abaixo, com vida de nojo, a funcionar sem nojo, a produzir muito, a sonhar económicamente e às escondidas e sóbria, especialmente sóbria, que as alucinações e as crenças são para quem se consegue olhar no outro dia de manhã.”
“..........ainda estou aqui......”
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