in “Tua”
O que dizes não me interessa, é o que calas que me prende.
E é assim que te amo; presa no que não sei, agarrada ao que não me interessa. Se um dia falares, fá-lo devagarinho, que eu nunca me consegui prender ao que conheço e alimento-me de palavras vazias. Nem saberia onde por tanta verdade, sabes, por aqui escasseia o espaço e a prateleira da verdade é muito comprida e bicuda, também não iria bem com os móveis, que estão feitos à minha medida: metros de esperança no que calas. Traz-me antes uma prenda, qualquer coisa desinteressante mas bonita, que eu ainda sou menina e acredito que o amor não se diz mas pode-se oferecer. Ou então, volta mais cedo que sem ti o dia custa, mas não digas que to pedi, finge que foi de repente; ias na rua e sem causa, nem razão não paravas de pensar em mim. Diz que te fez falta o meu riso infinito, ou melhor, diz que não vives sem o meu bolo do lanche, aquele que queima sempre um bocadinho, mas só no fundo. Se não te ocorrer nada, não fales que me podes assustar, senta as tuas mentiras no meu colo e deixa-me tratar delas, eu até acho que ainda tenho um resto de pomada para a alma. Se o problema for transporte, apanha o táxi que te espera na esquina desde ontem, eu sei meu querido, que eles andam sempre atrasados. Se eu chorar, não repares, é que ultimamente tenho o coração cheio de poeira que não pára de me chegar aos olhos, finge que foi por descascar cebola, finge que não fazes falta, que eu nem te esperava, que a surpresa foi tão grande,
que sem querer soltei um pulso com a faca da cozinha, e sem querer o outro, finge que não vês que estou numa banheira de água doce presa ao teu silêncio, ao que queres e não dizes, ao que sentes e não ofereces.
Se optares pela prenda, eu gostava que fosse um baton vermelho, vermelho combina com risos infinitos.
TUA
Devolvo-te o rio comigo dentro.
É no rio que tudo passa. É tarde e tu não chegas. Estás algures mas eu não estou. Na mala tantas missivas com destino, e eu sem destino nenhum. Uma mala cheia de palavras gastas, de cigarros por fumar, de razões para ir embora, uma mala cheia de medo de o ser, pelo tanto que me pesa. Eu não uso maquilhagem e é pena pois parece que me favorece, mas guardo num bolso apertado, em cima da alça cosida ao ombro, um corajoso lápis de olhos que me serve para escrever nas paredes.
Tu não vens e eu não consigo habituar-me. Não fui eu, mas as margens que me empurraram para ti, para dentro daquele rio onde tu corres distraído, onde nunca me esperas porque não tens tempo, eu sei, a corrente é forte e leva-te para longe, sem querer desembocas sempre numa cidade nova e nem te dás conta que há mil anos que me sento naquela margem velha e paciente, na esperança que uma qualquer cheia te traga á tona da minha memória. Mil anos Tua, aprisionada na terra com desejo de água. Agora tens-me sem precisares voltar, sou saudade navegante, alma ensopada, deixei para trás, a mala e o ombro, o meu lápis corajoso mas que não escreve na água e um mundo de infinitas paredes vazias. O rio só tem chão, e um só sentido; o da partida. Prometo que não te incomodo, falarei baixinho e não me vou queixar do frio, talvez estranhe tanto viajar sem porto, mas será só no inicio, também não te pedirei companhia porque estarei contigo. Para sempre contigo, nesse enorme naufrágio que somos nós.
TUA
12.00: O despertador não tocou. Como se tivesse pudor em tocar o tempo.
13.35: Não vou a lugar nenhum, contudo faço as malas. O tempo continua intocável.
16.00: Há duas horas e meia que procuro qualquer coisa que preencha o vazio das malas. Há duas horas e meia que me vasculho, na esperança de ter o que levar comigo para nenhum lado em hora alguma.
18.00: Hoje, sei lá eu porquê, hoje é diferente e não dói nada mais por isso, não tenho por onde doer, está tudo inteiro, bem remendado, porém não pesa, talvez por isso tropeço com tanta facilidade. Mas não faço birras, choro pouco, o pouco suficiente para comprar o autocolante da C.H.P., como tu dizes: condição humana provisória.
18.05: Não te quero incomodar, mas se quiseres vir para o café..., dizem que é bom quente, que se perde o lugar na mesa se não se chegar a horas, ou então esquece tudo isso e vem por mim que não sei ao certo quanto tempo mais fico por cá, se é que alguma vez aqui estive. Tenho a casa arrumada para ti, limpa, vazia de todas as coisas, como deve ser; nada que perturbe ou desconcentre.
21.10: Tu não és o género de pessoa que caiba no esquecimento, não puseram o teu nome em nenhuma cadeira, então, sei muito pouco o que fazer contigo. O café esfriou há muito e o vazio higiénico da casa contaminou a minha bagagem; há sete horas e trinta e cinco minutos que tento fazer a mala, mas esqueci-me de fazer a vida, se calhar foi isso, há sete horas e trinta e cinco minutos que pesa a bagagem que não tenho, a vida que não tenho, se viesses podias fazer-me uma trança, como já disse outras vezes; ainda sou menina.
21.10 do dia seguinte: Fiz vinte e quatro horas de silêncio por todos nós, um luto pelas frases mal acabadas, pelo que não temos direito a dizer, pelo que dizemos com direito e ninguém ouve. Não me agradeças, eu não falo, ou muito pouco, e quando o faço é muito baixo. Sou oficialmente distribuidora de palavras, pornografia mal roçada nas portas dos outros, recados em cima dos tapetes da entrada, algumas espreitadelas pelas fechaduras destapadas e metros de assinaturas de ausentes, tudo coisas que não me cabem na mala.
23.50: Talvez não gostes de café, ou foi simplesmente falta de tempo.
02.08: Levo o teu corajoso lápis de olhos no bolso e na mala uma quantidade inimaginável de nada, absolutamente nada.
04.49: Desculpa se me vou assim, mas haverão outras vezes, mesmo que não o notemos. Seria tudo mais fácil se aqui estivesses, se os chapéus de chuva fossem de chocolate e chovesse todos os dias, se eu coubesse na mala, se tranças me ficassem bem, se as cartas fossem doces e se pudessem comer no caminho, seria tudo mais fácil se tivesse feito chá e se não me faltasse tudo, tudo.
04.50: Estou a caminho. Desculpa-me do tanto que esqueci.
sábado, 1 de agosto de 2009
Textículos
“Não que eu me sinta sozinha”
Eu não sou muito de tomar comprimidos, mas tenho sempre para oferecer. Sempre me vi como uma pessoa muito generosa. E não há nada melhor que um comprimido, é que vai bem com tudo e são lindos, todos às cores, é verdade, fica sempre bem oferecer um comprimido. Ah, sem esquecer, que há um para todas as ocasiões; logo de manhã um azul para acordar, e com este uma infinidade para lhe fazer companhia, um laranja para sufocar a tensão arterial, um verde que é diurético para passarmos os dias urinar os nossos desafectos, um rosa para as angústias cinzentas, um amarelo para abrir o apetite de quem já “não tem estômago”, um roxo para trancar a boca de quem come demais, um castanho para calar a boca de quem fala demais. Durante o dia, vários, grenás, para digerirmos, para nos digerirmos, enfim para não vomitarmos o próprio dia. E à noite, granulados laxantes, que afinal, ninguém é de ferro, e uns branquinhos que são verdadeiras anestesias gerais para dormirmos um sono descansado.
Com tantas necessidades, não há presente melhor que puxar da mala e perguntar: Quer um comprimido?
A verdade é que eu sou bastante generosa.
Uma vez tive um marido, agora já não tenho, morreu. Não que eu me sinta sozinha. Era muito doente o meu marido, e foi ele que fez crescer em mim esta tamanha generosidade, este amor pelo próximo. Enchi a sua vida de doces psicotrópicos, ternas injecções de tudo o que havia, calorosas aspirinas, revigorantes supositórios, estimulantes xaropes e julgo mesmo que lhe correu nas veias um milagroso líquido letal. Acho que ele não chegou a compreender o meu amor, o meu cansaço e entregou-se à morte como se tivesse alguma razão para isso, desdenhou os dias intermináveis em que entregue à sua cama, lhe via a boca doente e escancarada babar lamúrias e gemidos.
Enfim agora já passou, mas continuo a dedicar-me aos outros.
A Sra está um bocado pálida, diria mesmo abatida, concerteza não vai recusar um comprimido.
---
Estou com uma dor de cabeça! Será de ver televisão? Naaa, não me parece, eu quase não vejo televisão, desde que soube que o excesso de informação dá epilepsia, e para além disso, o sofá da sala está sem molas e cada vez que me sento, sinto a coluna a passar-me um atestado médico, isto sem falar do pó que aquela maldita divisão acumula, aparece sorrateiro, silencioso, e sem que eu tenha tempo de o aniquilar, já tomou conta da minha asma e já meteu conversa com a minha bronquíolite, só não me chega ao coração porque esse anda empoeirado desde que nasci.
E esta dor de cabeça?! Será excesso de pensamentos? Ouvi dizer que cada cabeça tem um limite para as ralações e quando se ultrapassa o limite, a pessoa fica com os olhos mortos, com o peito triste, os pés revoltam-se com os passos, os braços com os abraços, o corpo esconde-se na cama e perde-se a validade. Esta doença tem um nome que não me lembro bem….perda de pressão, sem pressão, à pressão, depressão,… não tenho bem a certeza. Mas também não pode ser, eu quase não penso, é que me gasta as ideias e cansa-me os sentimentos, e tanto sangue a correr-me nos neurónios, pode provocar uma trombose, pode inundar a minha inteligência, pode-me explodir os miolos e se tropeço neles ainda caio, e parto um braço, ou parto para nunca mais voltar.
Esta dor de cabeça também se pode chamar marido, uma doença que desenvolvi em nova e que se tem vindo a agravar com os anos, no meu caso deu filhos, e um vazio sem fim, com o tempo veio a confusão, as palavras sem sentido, os comportamentos violentos para o físico e para a alma, mais tarde quase não se dá por ela, mas quando muda o tempo, ela ataca a nossa cabeça e as nossas vontades com uma força inacreditável. Parece que não dá para morrer, mas o sofrimento é de dar pena. Não que eu me sinta sozinha, afinal, tenho sempre uma dorzita para me acompanhar. Por falar nisso, o que será esta dor de barriga?
Eu não sou muito de tomar comprimidos, mas tenho sempre para oferecer. Sempre me vi como uma pessoa muito generosa. E não há nada melhor que um comprimido, é que vai bem com tudo e são lindos, todos às cores, é verdade, fica sempre bem oferecer um comprimido. Ah, sem esquecer, que há um para todas as ocasiões; logo de manhã um azul para acordar, e com este uma infinidade para lhe fazer companhia, um laranja para sufocar a tensão arterial, um verde que é diurético para passarmos os dias urinar os nossos desafectos, um rosa para as angústias cinzentas, um amarelo para abrir o apetite de quem já “não tem estômago”, um roxo para trancar a boca de quem come demais, um castanho para calar a boca de quem fala demais. Durante o dia, vários, grenás, para digerirmos, para nos digerirmos, enfim para não vomitarmos o próprio dia. E à noite, granulados laxantes, que afinal, ninguém é de ferro, e uns branquinhos que são verdadeiras anestesias gerais para dormirmos um sono descansado.
Com tantas necessidades, não há presente melhor que puxar da mala e perguntar: Quer um comprimido?
A verdade é que eu sou bastante generosa.
Uma vez tive um marido, agora já não tenho, morreu. Não que eu me sinta sozinha. Era muito doente o meu marido, e foi ele que fez crescer em mim esta tamanha generosidade, este amor pelo próximo. Enchi a sua vida de doces psicotrópicos, ternas injecções de tudo o que havia, calorosas aspirinas, revigorantes supositórios, estimulantes xaropes e julgo mesmo que lhe correu nas veias um milagroso líquido letal. Acho que ele não chegou a compreender o meu amor, o meu cansaço e entregou-se à morte como se tivesse alguma razão para isso, desdenhou os dias intermináveis em que entregue à sua cama, lhe via a boca doente e escancarada babar lamúrias e gemidos.
Enfim agora já passou, mas continuo a dedicar-me aos outros.
A Sra está um bocado pálida, diria mesmo abatida, concerteza não vai recusar um comprimido.
---
Estou com uma dor de cabeça! Será de ver televisão? Naaa, não me parece, eu quase não vejo televisão, desde que soube que o excesso de informação dá epilepsia, e para além disso, o sofá da sala está sem molas e cada vez que me sento, sinto a coluna a passar-me um atestado médico, isto sem falar do pó que aquela maldita divisão acumula, aparece sorrateiro, silencioso, e sem que eu tenha tempo de o aniquilar, já tomou conta da minha asma e já meteu conversa com a minha bronquíolite, só não me chega ao coração porque esse anda empoeirado desde que nasci.
E esta dor de cabeça?! Será excesso de pensamentos? Ouvi dizer que cada cabeça tem um limite para as ralações e quando se ultrapassa o limite, a pessoa fica com os olhos mortos, com o peito triste, os pés revoltam-se com os passos, os braços com os abraços, o corpo esconde-se na cama e perde-se a validade. Esta doença tem um nome que não me lembro bem….perda de pressão, sem pressão, à pressão, depressão,… não tenho bem a certeza. Mas também não pode ser, eu quase não penso, é que me gasta as ideias e cansa-me os sentimentos, e tanto sangue a correr-me nos neurónios, pode provocar uma trombose, pode inundar a minha inteligência, pode-me explodir os miolos e se tropeço neles ainda caio, e parto um braço, ou parto para nunca mais voltar.
Esta dor de cabeça também se pode chamar marido, uma doença que desenvolvi em nova e que se tem vindo a agravar com os anos, no meu caso deu filhos, e um vazio sem fim, com o tempo veio a confusão, as palavras sem sentido, os comportamentos violentos para o físico e para a alma, mais tarde quase não se dá por ela, mas quando muda o tempo, ela ataca a nossa cabeça e as nossas vontades com uma força inacreditável. Parece que não dá para morrer, mas o sofrimento é de dar pena. Não que eu me sinta sozinha, afinal, tenho sempre uma dorzita para me acompanhar. Por falar nisso, o que será esta dor de barriga?
Textículos
“Cão”
Eu queria ser fiel como um cão barrigudo, de bigodes desconfiados, de raça livre, que todos os dias torna ao mesmo sítio para comer, ou para se assegurar, que alguém compadecido com a sua situação, dele se lembrou, e despejou um tupperewere de véspera, cheio de excedentes ternurentos e culpas sem direcção.
Eu queria ser um lixo de boas acções, queria ter um açaime de agradecimentos, e uma pata pronta para oferecer, o furor do grande espectáculo de ser cão, barrigudo, necessitado e talentoso. Eu queria farejar a raça,... não a que vem no boletim, mas a que vem na alma, que ladra fora de horas, que rosna aos pedigrees, que cheira a manta do coração, que cheira a manta oferecida ao cão.
Eu queria ter uma trela de dedicação, eu não queria fazer chichi no chão; não porque é feio, mas porque ninguém me segura a mão, e quatro patas é muita mão sem segurança.
Eu queria honrar o meu focinho, porque focinho, é a palavra mais querida que eu conheço, porque focinho, é o meu bilhete de identidade, porque focinho, é onde todos podem por a mão: “ que linda parece uma basset”, “ meu deus, tão feroz com um focinho tão doce”,...
"Se não estivesse a dormir, diria que tem focinho de quem nunca dorme”.
Assim se constrói a cara de um focinho..
Para me tirarem deste canil é preciso saberem, que mordo, mordo, tal e qual gente que imita o cão, ou talvez, mordo, tal qual cão que imita gente; mordo, sei lá porquê; porque sou cão? Ou porque sou gente?
Desculpem, esqueci-me de dizer que fico linda de coleira, a angústia parece dar sempre uma estranha beleza ao angustiado. De qualquer forma, se me quiserem prender, usem a velha trela vermelha, é que a minha prisão é escarlate, cor do baton mais ordinário, mais vulgar, mas também mais nobre pelo tanto que pertence, a quem é cão, a quem rosna, a quem gostava de ser barrigudo, de bigodes desconfiados, e raça livre.
Eu queria ser fiel como um cão barrigudo, de bigodes desconfiados, de raça livre, que todos os dias torna ao mesmo sítio para comer, ou para se assegurar, que alguém compadecido com a sua situação, dele se lembrou, e despejou um tupperewere de véspera, cheio de excedentes ternurentos e culpas sem direcção.
Eu queria ser um lixo de boas acções, queria ter um açaime de agradecimentos, e uma pata pronta para oferecer, o furor do grande espectáculo de ser cão, barrigudo, necessitado e talentoso. Eu queria farejar a raça,... não a que vem no boletim, mas a que vem na alma, que ladra fora de horas, que rosna aos pedigrees, que cheira a manta do coração, que cheira a manta oferecida ao cão.
Eu queria ter uma trela de dedicação, eu não queria fazer chichi no chão; não porque é feio, mas porque ninguém me segura a mão, e quatro patas é muita mão sem segurança.
Eu queria honrar o meu focinho, porque focinho, é a palavra mais querida que eu conheço, porque focinho, é o meu bilhete de identidade, porque focinho, é onde todos podem por a mão: “ que linda parece uma basset”, “ meu deus, tão feroz com um focinho tão doce”,...
"Se não estivesse a dormir, diria que tem focinho de quem nunca dorme”.
Assim se constrói a cara de um focinho..
Para me tirarem deste canil é preciso saberem, que mordo, mordo, tal e qual gente que imita o cão, ou talvez, mordo, tal qual cão que imita gente; mordo, sei lá porquê; porque sou cão? Ou porque sou gente?
Desculpem, esqueci-me de dizer que fico linda de coleira, a angústia parece dar sempre uma estranha beleza ao angustiado. De qualquer forma, se me quiserem prender, usem a velha trela vermelha, é que a minha prisão é escarlate, cor do baton mais ordinário, mais vulgar, mas também mais nobre pelo tanto que pertence, a quem é cão, a quem rosna, a quem gostava de ser barrigudo, de bigodes desconfiados, e raça livre.
Textículos
“Anatomia do Mar”
Sabes, acho que nunca te disse adeus, nem sei quem és, e no entanto tudo em ti me faz acenar. Tenho os olhos espantados do tanto que eles se despedem de ti mesmo antes de chegares. Queria não me esquecer de olhar para trás , porque partir sem passado , não é partir, é esquecer que algum dia estivemos, é gastar pequenas idas sem nome, é dar mau nome ás grandes despedidas., mas não posso, porque tu só existes no futuro . Diz-me por favor como faço para usar esta dose de lágrimas empacotadas que trago na bolsa, ah e onde é que se acelera esta câmara lenta que liguei desde que nasci e também como posso para parar de encolher nesta praça gigante onde tu nunca chegas.
De ti só sei que te atrasas muito e eu não trouxe maquilhagem para tantos anos, sei que me fazes viver neste desalinho, no canto desta praça sem força para ir embora, sem calma para descobrir um “até” que te sirva para quando chegares, talvez tenhas errado o caminho de propósito e “até nunca” te encontrarei, talvez não existas eu ficarei aqui todos os dias, só “até logo”, talvez estejas no canto oposto ao meu, e os meus olhos espantados do tanto que se despedem de ti, “até sempre” vão-te dizer adeus
Sabes, acho que nunca te disse adeus, nem sei quem és, e no entanto tudo em ti me faz acenar, sempre e até sempre, até sempre, até sempre, até sempre, até sempre, até.........................................
Chora, que assim lavas as pedras sujas do porto que pisas atrasado.
Chora, que o barco partiu ainda nem tinhas nascido e agora és grande e não tens onde embarcar.
Chora por mim, que te sei sem rumo e não volto.
Chora que tens frio na vida e ela só vai acontecer amanhã,
Chora que amanhã é bom e vem dentro do prazo
“ Cry me a river” e se tiveres coragem chora-me um mar
mas chora-me um mar doce, um mar de suspiros, um mar que não rebente , um mar que não afunde, que não escorregue, mas que me engula.
É mentira que ao longe estão os barcos, ao longe não está nada.
Nunca percebi porque me obriguei a vê-los, porque precisei de ter barcos na minha vida, na minha janela, na minha lembrança, e especialmente nunca percebi porquê barcos. Porque não naves espaciais que me levariam tão mais longe, que me dariam uma rotina inter galáctica, que me encheriam de estrelas, ou dirigíveis para passear as horas mortas, ver de cima a nossa atarefada existência, quem sabe uma locomotiva para lembrar de partir como nos filmes, ou até mesmo um autocarro seria mais útil, hoje em dia eles demoram tanto a passar,....mas não, os barcos teimosos ocupam o meu longe sem cerimónias, balançam –me o dia inteiro sem pena, sem que eu entenda o que aqui fazem, o que querem de mim. Então fecho os olhos para os esquecer, mas o pensamento rasga como uma vela ao vento, os pés ficam de areia fina desmanchando-se devagarinho e as pernas bambas de mar e eu própria passo a ser ao longe, só que ao longe, ao longe não está nada. Ao longe estão os barcos.
Há barcos que nos crescem na alma com o único propósito de nos navegar, fazem-nos de mar, de porto, de chegada, de lenço branco na mão mas um dia, sem aviso, sem fogos, nem apito, fazem-nos de partida .Tanto quanto eu sei foi assim que nasceu a saudade: embrulhada num lenço branco, num dia de partida, sentada naqueles olhos vazios, a acenar a um barquinho que nunca viu..... mas que lhe disseram rumava ao céu.
Aos pequeninos diz-se que foi uma estrelinha que nasceu, e eles, sorriem o sorriso de tantos barcos para os navegar, aos grandes não se diz muito, porque eles ouvem pouco, já não sentem a alma lavada porque com os barcos foi a água, e do céu já só se lembram que lhes pode cair na cabeça .
Há barcos, que nos crescem na alma, para tapar os buracos da nossa geografia, para sermos terra à vista e não, terra à deriva, só nunca percebi porque se vão desta água quente, que é a nossa vontade de ser feliz, deste porto seguro que se pudesse, se transformava em amarra.... para jamais ver chegar a partida.
Sr.poeta, será que quando disse: “ alma minha gentil, que te partiste tão cedo ”,não queria dizer “alma minha gentil, que naufragas-te tão fundo...”
E a saudade, quem mandou vir essa senhora? Eu não fui, então porque que é que tenho a alma em dia de partida? Porque abandonam os barcos o meu cais? Quem inverteu as rotas e trocou os dias?
Escorrem-me barcos e águas pelo caminho, não fosse a Caravela que me leva ao oceano, a ancora que me prende à luz, o meu mastro de felicidade, afundaria na próxima esquina .Essa Caravela, chama-se amor, e leva-me na única e necessária viagem da minha vida.
Sabes, acho que nunca te disse adeus, nem sei quem és, e no entanto tudo em ti me faz acenar. Tenho os olhos espantados do tanto que eles se despedem de ti mesmo antes de chegares. Queria não me esquecer de olhar para trás , porque partir sem passado , não é partir, é esquecer que algum dia estivemos, é gastar pequenas idas sem nome, é dar mau nome ás grandes despedidas., mas não posso, porque tu só existes no futuro . Diz-me por favor como faço para usar esta dose de lágrimas empacotadas que trago na bolsa, ah e onde é que se acelera esta câmara lenta que liguei desde que nasci e também como posso para parar de encolher nesta praça gigante onde tu nunca chegas.
De ti só sei que te atrasas muito e eu não trouxe maquilhagem para tantos anos, sei que me fazes viver neste desalinho, no canto desta praça sem força para ir embora, sem calma para descobrir um “até” que te sirva para quando chegares, talvez tenhas errado o caminho de propósito e “até nunca” te encontrarei, talvez não existas eu ficarei aqui todos os dias, só “até logo”, talvez estejas no canto oposto ao meu, e os meus olhos espantados do tanto que se despedem de ti, “até sempre” vão-te dizer adeus
Sabes, acho que nunca te disse adeus, nem sei quem és, e no entanto tudo em ti me faz acenar, sempre e até sempre, até sempre, até sempre, até sempre, até sempre, até.........................................
Chora, que assim lavas as pedras sujas do porto que pisas atrasado.
Chora, que o barco partiu ainda nem tinhas nascido e agora és grande e não tens onde embarcar.
Chora por mim, que te sei sem rumo e não volto.
Chora que tens frio na vida e ela só vai acontecer amanhã,
Chora que amanhã é bom e vem dentro do prazo
“ Cry me a river” e se tiveres coragem chora-me um mar
mas chora-me um mar doce, um mar de suspiros, um mar que não rebente , um mar que não afunde, que não escorregue, mas que me engula.
É mentira que ao longe estão os barcos, ao longe não está nada.
Nunca percebi porque me obriguei a vê-los, porque precisei de ter barcos na minha vida, na minha janela, na minha lembrança, e especialmente nunca percebi porquê barcos. Porque não naves espaciais que me levariam tão mais longe, que me dariam uma rotina inter galáctica, que me encheriam de estrelas, ou dirigíveis para passear as horas mortas, ver de cima a nossa atarefada existência, quem sabe uma locomotiva para lembrar de partir como nos filmes, ou até mesmo um autocarro seria mais útil, hoje em dia eles demoram tanto a passar,....mas não, os barcos teimosos ocupam o meu longe sem cerimónias, balançam –me o dia inteiro sem pena, sem que eu entenda o que aqui fazem, o que querem de mim. Então fecho os olhos para os esquecer, mas o pensamento rasga como uma vela ao vento, os pés ficam de areia fina desmanchando-se devagarinho e as pernas bambas de mar e eu própria passo a ser ao longe, só que ao longe, ao longe não está nada. Ao longe estão os barcos.
Há barcos que nos crescem na alma com o único propósito de nos navegar, fazem-nos de mar, de porto, de chegada, de lenço branco na mão mas um dia, sem aviso, sem fogos, nem apito, fazem-nos de partida .Tanto quanto eu sei foi assim que nasceu a saudade: embrulhada num lenço branco, num dia de partida, sentada naqueles olhos vazios, a acenar a um barquinho que nunca viu..... mas que lhe disseram rumava ao céu.
Aos pequeninos diz-se que foi uma estrelinha que nasceu, e eles, sorriem o sorriso de tantos barcos para os navegar, aos grandes não se diz muito, porque eles ouvem pouco, já não sentem a alma lavada porque com os barcos foi a água, e do céu já só se lembram que lhes pode cair na cabeça .
Há barcos, que nos crescem na alma, para tapar os buracos da nossa geografia, para sermos terra à vista e não, terra à deriva, só nunca percebi porque se vão desta água quente, que é a nossa vontade de ser feliz, deste porto seguro que se pudesse, se transformava em amarra.... para jamais ver chegar a partida.
Sr.poeta, será que quando disse: “ alma minha gentil, que te partiste tão cedo ”,não queria dizer “alma minha gentil, que naufragas-te tão fundo...”
E a saudade, quem mandou vir essa senhora? Eu não fui, então porque que é que tenho a alma em dia de partida? Porque abandonam os barcos o meu cais? Quem inverteu as rotas e trocou os dias?
Escorrem-me barcos e águas pelo caminho, não fosse a Caravela que me leva ao oceano, a ancora que me prende à luz, o meu mastro de felicidade, afundaria na próxima esquina .Essa Caravela, chama-se amor, e leva-me na única e necessária viagem da minha vida.
A OBRA - SCRIPT
"A OBRA"
Fazem hoje 445 dias que não chegaste para jantar, fazem
hoje 445 dias que esqueci que destino dar ao vazio sentado na tua cadeira, que
destino dar a mim, que vazia, não me sento em lugar nenhum. Faz hoje uma vida
que não sei o meu lugar, e nunca erro, porque não vou a lugar nenhum, nem
saberia onde ir, tenho uma mala cheia de nada à espera que lhe construa uma
qualquer viagem, que lhe construa umas tantas memórias, algumas vontades e um
endereço para ela carregar.
Lamento mas sei muito pouco sobre construções, tive
notícias de algumas mas todas se passaram fora de mim, parece que têm vindo a
crescer, nunca as vi mas ouço-as constantemente, imagino-as de um cimento cor
de esperança, pregadas entre elas a flutuar no céu.
Como eu gostaria de poder ter uma para mim; todo o meu
tédio ferrugento edificado, com vista para o rio, a minha vida rebocada e
pintada de fresco, um futuro envidraçado para a rua e uma porta que se abrisse
à hora de jantar. Mas como já disse sei muito pouco de construções, apesar de
fazer jantares deliciosos principalmente com destinatário.
Fazem hoje 445 dias que cozinho sem parar, mas tu não
voltaste nem uma vez, tenho uma paciência de pedra e um martelo a bater no meu
peito, se demorares muito talvez eu saia desta minha eterna cozinha e te vá
procurar. Quem sabe se quando estavas a voltar te perdeste a olhar alguma
cidade acabada de nascer; corajosas pedras arrancadas à terra e ao pó, por mãos
desconhecidas que quiseste apertar, quem sabe hoje essas mãos são de velhos
amigos, com quem te encostas ao muro operário a apanhar o sol do meio-dia, com
quem bebes longas conversas no café da esquina, com quem divides o almoço que
não fui eu que fiz, enquanto assobias todo o teu orgulho a quem passa.
Quando voltares quero saber tudo sobre essa cidade; que
máquina gigante a desenterrou, com quantas mãos se constrói uma igual, se ela
faz sombra, se nos perdemos lá dentro e principalmente se lá alugam alguns
metros quadrados de felicidade.
Eu acho que consigo ver tudo isso da minha janela, mas
com tanto para cozinhar não tive tempo de olhar para fora.
Hoje, perdoa-me mas perdi a conta aos dias, encontrei os
meus tachos cansados, um fogão tímido e arrefecido, as paredes da minha cozinha
encolhidas e no supermercado para a alma esgotaram-se os mantimentos. Sinto
perto a cidade donde não sais, as construções que não vi, a obra que me
escondeste. Tudo o que tinha para ti
encheu a minha mala, todas as minhas saudades só querem partir e a minha
direcção já não te pertence.
Amanhã parto às escuras, quero ver o amanhecer à porta da
minha vida, sem maquilhagem, olhar firme e mãos no mundo, dizem se ouve uma
orquestra de metal que perfura tudo à volta, dizem que chegam camiões
carregados de tudo para nós misturarmos, dizem que tem uma escada branca para
um jardim e que devemos declarar a bagagem, dizem que nos recebem
esfomeados...dizem que a fome é o motor da construção. Amanhã eu parto para
estranhamente chegar.
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