sábado, 1 de agosto de 2009

A OBRA - SCRIPT

"A OBRA"


Fazem hoje 445 dias que não chegaste para jantar, fazem hoje 445 dias que esqueci que destino dar ao vazio sentado na tua cadeira, que destino dar a mim, que vazia, não me sento em lugar nenhum. Faz hoje uma vida que não sei o meu lugar, e nunca erro, porque não vou a lugar nenhum, nem saberia onde ir, tenho uma mala cheia de nada à espera que lhe construa uma qualquer viagem, que lhe construa umas tantas memórias, algumas vontades e um endereço para ela carregar.
Lamento mas sei muito pouco sobre construções, tive notícias de algumas mas todas se passaram fora de mim, parece que têm vindo a crescer, nunca as vi mas ouço-as constantemente, imagino-as de um cimento cor de esperança, pregadas entre elas a flutuar no céu.
Como eu gostaria de poder ter uma para mim; todo o meu tédio ferrugento edificado, com vista para o rio, a minha vida rebocada e pintada de fresco, um futuro envidraçado para a rua e uma porta que se abrisse à hora de jantar. Mas como já disse sei muito pouco de construções, apesar de fazer jantares deliciosos principalmente com destinatário. 
Fazem hoje 445 dias que cozinho sem parar, mas tu não voltaste nem uma vez, tenho uma paciência de pedra e um martelo a bater no meu peito, se demorares muito talvez eu saia desta minha eterna cozinha e te vá procurar. Quem sabe se quando estavas a voltar te perdeste a olhar alguma cidade acabada de nascer; corajosas pedras arrancadas à terra e ao pó, por mãos desconhecidas que quiseste apertar, quem sabe hoje essas mãos são de velhos amigos, com quem te encostas ao muro operário a apanhar o sol do meio-dia, com quem bebes longas conversas no café da esquina, com quem divides o almoço que não fui eu que fiz, enquanto assobias todo o teu orgulho a quem passa.
Quando voltares quero saber tudo sobre essa cidade; que máquina gigante a desenterrou, com quantas mãos se constrói uma igual, se ela faz sombra, se nos perdemos lá dentro e principalmente se lá alugam alguns metros quadrados de felicidade.
Eu acho que consigo ver tudo isso da minha janela, mas com tanto para cozinhar não tive tempo de olhar para fora. 
Hoje, perdoa-me mas perdi a conta aos dias, encontrei os meus tachos cansados, um fogão tímido e arrefecido, as paredes da minha cozinha encolhidas e no supermercado para a alma esgotaram-se os mantimentos. Sinto perto a cidade donde não sais, as construções que não vi, a obra que me escondeste.  Tudo o que tinha para ti encheu a minha mala, todas as minhas saudades só querem partir e a minha direcção já não te pertence. 

Amanhã parto às escuras, quero ver o amanhecer à porta da minha vida, sem maquilhagem, olhar firme e mãos no mundo, dizem se ouve uma orquestra de metal que perfura tudo à volta, dizem que chegam camiões carregados de tudo para nós misturarmos, dizem que tem uma escada branca para um jardim e que devemos declarar a bagagem, dizem que nos recebem esfomeados...dizem que a fome é o motor da construção. Amanhã eu parto para estranhamente chegar. 


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