Fazem hoje 445 dias que não chegaste para jantar, fazem
hoje 445 dias que esqueci que destino dar ao vazio sentado na tua cadeira, que
destino dar a mim, que vazia, não me sento em lugar nenhum. Faz hoje uma vida
que não sei o meu lugar, e nunca erro, porque não vou a lugar nenhum, nem
saberia onde ir, tenho uma mala cheia de nada à espera que lhe construa uma
qualquer viagem, que lhe construa umas tantas memórias, algumas vontades e um
endereço para ela carregar.
Lamento mas sei muito pouco sobre construções, tive
notícias de algumas mas todas se passaram fora de mim, parece que têm vindo a
crescer, nunca as vi mas ouço-as constantemente, imagino-as de um cimento cor
de esperança, pregadas entre elas a flutuar no céu.
Como eu gostaria de poder ter uma para mim; todo o meu
tédio ferrugento edificado, com vista para o rio, a minha vida rebocada e
pintada de fresco, um futuro envidraçado para a rua e uma porta que se abrisse
à hora de jantar. Mas como já disse sei muito pouco de construções, apesar de
fazer jantares deliciosos principalmente com destinatário.
Fazem hoje 445 dias que cozinho sem parar, mas tu não
voltaste nem uma vez, tenho uma paciência de pedra e um martelo a bater no meu
peito, se demorares muito talvez eu saia desta minha eterna cozinha e te vá
procurar. Quem sabe se quando estavas a voltar te perdeste a olhar alguma
cidade acabada de nascer; corajosas pedras arrancadas à terra e ao pó, por mãos
desconhecidas que quiseste apertar, quem sabe hoje essas mãos são de velhos
amigos, com quem te encostas ao muro operário a apanhar o sol do meio-dia, com
quem bebes longas conversas no café da esquina, com quem divides o almoço que
não fui eu que fiz, enquanto assobias todo o teu orgulho a quem passa.
Quando voltares quero saber tudo sobre essa cidade; que
máquina gigante a desenterrou, com quantas mãos se constrói uma igual, se ela
faz sombra, se nos perdemos lá dentro e principalmente se lá alugam alguns
metros quadrados de felicidade.
Eu acho que consigo ver tudo isso da minha janela, mas
com tanto para cozinhar não tive tempo de olhar para fora.
Hoje, perdoa-me mas perdi a conta aos dias, encontrei os
meus tachos cansados, um fogão tímido e arrefecido, as paredes da minha cozinha
encolhidas e no supermercado para a alma esgotaram-se os mantimentos. Sinto
perto a cidade donde não sais, as construções que não vi, a obra que me
escondeste. Tudo o que tinha para ti
encheu a minha mala, todas as minhas saudades só querem partir e a minha
direcção já não te pertence.
Amanhã parto às escuras, quero ver o amanhecer à porta da
minha vida, sem maquilhagem, olhar firme e mãos no mundo, dizem se ouve uma
orquestra de metal que perfura tudo à volta, dizem que chegam camiões
carregados de tudo para nós misturarmos, dizem que tem uma escada branca para
um jardim e que devemos declarar a bagagem, dizem que nos recebem
esfomeados...dizem que a fome é o motor da construção. Amanhã eu parto para
estranhamente chegar.
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