“Anatomia do Mar”
Sabes, acho que nunca te disse adeus, nem sei quem és, e no entanto tudo em ti me faz acenar. Tenho os olhos espantados do tanto que eles se despedem de ti mesmo antes de chegares. Queria não me esquecer de olhar para trás , porque partir sem passado , não é partir, é esquecer que algum dia estivemos, é gastar pequenas idas sem nome, é dar mau nome ás grandes despedidas., mas não posso, porque tu só existes no futuro . Diz-me por favor como faço para usar esta dose de lágrimas empacotadas que trago na bolsa, ah e onde é que se acelera esta câmara lenta que liguei desde que nasci e também como posso para parar de encolher nesta praça gigante onde tu nunca chegas.
De ti só sei que te atrasas muito e eu não trouxe maquilhagem para tantos anos, sei que me fazes viver neste desalinho, no canto desta praça sem força para ir embora, sem calma para descobrir um “até” que te sirva para quando chegares, talvez tenhas errado o caminho de propósito e “até nunca” te encontrarei, talvez não existas eu ficarei aqui todos os dias, só “até logo”, talvez estejas no canto oposto ao meu, e os meus olhos espantados do tanto que se despedem de ti, “até sempre” vão-te dizer adeus
Sabes, acho que nunca te disse adeus, nem sei quem és, e no entanto tudo em ti me faz acenar, sempre e até sempre, até sempre, até sempre, até sempre, até sempre, até.........................................
Chora, que assim lavas as pedras sujas do porto que pisas atrasado.
Chora, que o barco partiu ainda nem tinhas nascido e agora és grande e não tens onde embarcar.
Chora por mim, que te sei sem rumo e não volto.
Chora que tens frio na vida e ela só vai acontecer amanhã,
Chora que amanhã é bom e vem dentro do prazo
“ Cry me a river” e se tiveres coragem chora-me um mar
mas chora-me um mar doce, um mar de suspiros, um mar que não rebente , um mar que não afunde, que não escorregue, mas que me engula.
É mentira que ao longe estão os barcos, ao longe não está nada.
Nunca percebi porque me obriguei a vê-los, porque precisei de ter barcos na minha vida, na minha janela, na minha lembrança, e especialmente nunca percebi porquê barcos. Porque não naves espaciais que me levariam tão mais longe, que me dariam uma rotina inter galáctica, que me encheriam de estrelas, ou dirigíveis para passear as horas mortas, ver de cima a nossa atarefada existência, quem sabe uma locomotiva para lembrar de partir como nos filmes, ou até mesmo um autocarro seria mais útil, hoje em dia eles demoram tanto a passar,....mas não, os barcos teimosos ocupam o meu longe sem cerimónias, balançam –me o dia inteiro sem pena, sem que eu entenda o que aqui fazem, o que querem de mim. Então fecho os olhos para os esquecer, mas o pensamento rasga como uma vela ao vento, os pés ficam de areia fina desmanchando-se devagarinho e as pernas bambas de mar e eu própria passo a ser ao longe, só que ao longe, ao longe não está nada. Ao longe estão os barcos.
Há barcos que nos crescem na alma com o único propósito de nos navegar, fazem-nos de mar, de porto, de chegada, de lenço branco na mão mas um dia, sem aviso, sem fogos, nem apito, fazem-nos de partida .Tanto quanto eu sei foi assim que nasceu a saudade: embrulhada num lenço branco, num dia de partida, sentada naqueles olhos vazios, a acenar a um barquinho que nunca viu..... mas que lhe disseram rumava ao céu.
Aos pequeninos diz-se que foi uma estrelinha que nasceu, e eles, sorriem o sorriso de tantos barcos para os navegar, aos grandes não se diz muito, porque eles ouvem pouco, já não sentem a alma lavada porque com os barcos foi a água, e do céu já só se lembram que lhes pode cair na cabeça .
Há barcos, que nos crescem na alma, para tapar os buracos da nossa geografia, para sermos terra à vista e não, terra à deriva, só nunca percebi porque se vão desta água quente, que é a nossa vontade de ser feliz, deste porto seguro que se pudesse, se transformava em amarra.... para jamais ver chegar a partida.
Sr.poeta, será que quando disse: “ alma minha gentil, que te partiste tão cedo ”,não queria dizer “alma minha gentil, que naufragas-te tão fundo...”
E a saudade, quem mandou vir essa senhora? Eu não fui, então porque que é que tenho a alma em dia de partida? Porque abandonam os barcos o meu cais? Quem inverteu as rotas e trocou os dias?
Escorrem-me barcos e águas pelo caminho, não fosse a Caravela que me leva ao oceano, a ancora que me prende à luz, o meu mastro de felicidade, afundaria na próxima esquina .Essa Caravela, chama-se amor, e leva-me na única e necessária viagem da minha vida.
sábado, 1 de agosto de 2009
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Escritora maravilhosa!!!
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