sábado, 20 de dezembro de 2014

A PRECE - SCRIPT

"A Prece"

Já vou descer…daqui a pouco.
É só o tempo de me despedir do infinito, fechar as janelas do céu e entregar as chaves da nossa existência.
Hoje acordei pregado aos nossos sonhos mas distante dos homens. Doem-me as preces que chegam baixinho, doem-me os sacrifícios, as caminhadas, doí-me a eternidade. Quantas vozes tem uma oração? Quantos passos são do céu à terra? Quanto é que mede um milagre? Um abismo de velas ilumina o meu caminho de volta.
Já vou descer…daqui a pouco.
Tenho medo de cair e não me magoar. Tenho saudades de chorar, chorar muito… mas lágrimas transparentes como as de toda a gente, tropeçar na rua, rir às gargalhadas, fazer sombra, apaixonar-me, encher a boca de pão e ter alguém para conversar. Principalmente ter alguém para conversar, saber das novidades da terra em segunda mão, desabafar o quanto o eterno me aprisiona, o quão eterna é a minha vontade de viver.
Um dia hei-de ser velhinho, sem memória celestial, hei-de ter uma casa de pedra equilibrada numa tira de madeira e uma vida de pedra equilibrada na esperança.
Acho que estou preparado para cair do céu, tenho um emaranhado de andorinhas nos ombros e asas no meu destino.
Obrigado pelos segredos, pelas confissões, pelas preces e por tão grande amor. Hoje carrego uma cruz de carne e osso, os espinhos da imperfeição mas a felicidade do nosso reencontro.
Já vou descer…agora.

Quem não tiver pecados, que não atire pedra nenhuma.


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