"A Prece"
Já
vou descer…daqui a pouco.
É
só o tempo de me despedir do infinito, fechar as janelas do céu e entregar as
chaves da nossa existência.
Hoje
acordei pregado aos nossos sonhos mas distante dos homens. Doem-me as preces
que chegam baixinho, doem-me os sacrifícios, as caminhadas, doí-me a
eternidade. Quantas vozes tem uma oração? Quantos passos são do céu à terra?
Quanto é que mede um milagre? Um abismo de velas ilumina o meu caminho de
volta.
Já
vou descer…daqui a pouco.
Tenho
medo de cair e não me magoar. Tenho saudades de chorar, chorar muito… mas
lágrimas transparentes como as de toda a gente, tropeçar na rua, rir às
gargalhadas, fazer sombra, apaixonar-me, encher a boca de pão e ter alguém para
conversar. Principalmente ter alguém para conversar, saber das novidades da
terra em segunda mão, desabafar o quanto o eterno me aprisiona, o quão eterna é
a minha vontade de viver.
Um
dia hei-de ser velhinho, sem memória celestial, hei-de ter uma casa de pedra
equilibrada numa tira de madeira e uma vida de pedra equilibrada na esperança.
Acho
que estou preparado para cair do céu, tenho um emaranhado de andorinhas nos
ombros e asas no meu destino.
Obrigado
pelos segredos, pelas confissões, pelas preces e por tão grande amor. Hoje
carrego uma cruz de carne e osso, os espinhos da imperfeição mas a felicidade
do nosso reencontro.
Já
vou descer…agora.
Quem
não tiver pecados, que não atire pedra nenhuma.
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